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José Cadilhe de Oliveira e a memória do Carnaval de Curitiba

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Uma das pessoas mais populares de Curitiba, José Cadilhe de Oliveira foi a própria memória do Carnaval da cidade. Advogado por formação e goleiro de futebol por paixão, Cadilhe fundou a “Embaixadores da Alegria”, a primeira escola de samba a se estruturar legalmente em Curitiba. Cadilhe morreu em setembro de 2006, aos 83 anos. E esta entrevista foi gravada em dezembro de 1998.

 

 

José Wille – Você é conhecido como um entusiasta do samba, do Carnaval e do futebol em Curitiba.

 

José Cadilhe – Realmente, a minha vida, durante todo esse tempo – desde a meninice, a adolescência e agora já na terceira idade – foi sempre pautada por esse triunvirato: samba, Carnaval e futebol. E eu sempre brinco que seriam uma espécie de três mosqueteiros da minha vida – Athos, Portos e Aramis e a advocacia seria o D’Artagnan.

 

José Wille – Que garantia o ganha-pão.

 

José Cadilhe – Que garantia, inclusive, que eu pudesse ter esse lazer através das atividades carnavalescas, do futebol e do samba.

 

José Wille – O senhor nasceu em 1922, em Ponta Grossa…

 

José Cadilhe – Em Ponta Grossa. Oito de novembro de 1922. Eu completei 76 anos agora, bem recentemente.

 

José Wille – Seu pai era jornalista em Curitiba e foi morar e trabalhar em Ponta Grossa?

 

José Cadilhe – Papai casou lá em Ponta Grossa, mas mamãe também era curitibana. Meu pai foi jornalista da antiga, porque, naquele tempo, não existiam as escolas de jornalismo. Vinham de berço os grandes nomes do jornalismo de então. Papai trabalhou durante muito tempo como correspondente. Como ele tinha um português maravilhoso, trabalhou em grandes firmas de Ponta Grossa e também no “Diário dos Campos”. Não fez do jornalismo uma profissão, mas foi sempre um adendo de suas atividades no comércio e na indústria, porque ele também trabalhou muito com erva-mate.

 

José Wille – E o senhor seguiu o caminho do pai, trabalhando no mesmo jornal?

 

José Cadilhe – Eu trabalhei depois no “Diário dos Campos”, mas não fui contemporâneo de papai. Eu era garoto quando meu pai trabalhava. Depois, já na minha adolescência, eu comecei a fazer esportes no “Diário dos Campos” e também na Rádio Clube Pontagrossense, a J2.

 

José Wille – Isso na década de 40…

 

José Cadilhe – Da década de 40 em diante. Eu comecei escrevendo sobre esporte e também fazia a coluna social. Não essa social de hoje, da vida de casais e da sociedade de um modo geral. Eu fazia os aniversários, escrevia as notas de aniversários ou de alguma data que era festiva para a cidade. Comecei com 16 anos por aí.

 

José Wille – E a cidade de Ponta Grossa tinha também uma das primeiras rádios do Paraná, na qual o senhor trabalhou.

 

José Cadilhe – Na rádio, eu trabalhei muito tempo. E nós tínhamos, aqui em Curitiba, na década de 40, a B2, que é bem antiga e, se não me falha a memória, funcionava desde 1930. Quando a Pontagrossense foi ao ar em Curitiba, existiam apenas a Guairacá, a B2 e uma ou outra, mas não me recordo. Eu sei que a de Ponta Grossa era uma das três ou quatro primeiras do estado.

 

José Wille – E o seu assunto era futebol?

 

José Cadilhe – Sim, o futebol. Mas lá, em uma cidade do interior, a gente era pau para toda obra. Eu cansei de transmitir bailes, festividades, até enterro… Tinha figurão lá que morria e a gente ia fazer a cobertura do evento. E também apresentei muito programa no Cine-Teatro Renascença. Tive, assim, uma mocidade bem agitada, mas no bom sentido. Porque, antigamente, por incrível que pareça, a escola era risonha e franca.

 

José Wille – O senhor não só transmitia futebol como também jogava como goleiro.

 

José Cadilhe – Joguei no Guarani de Ponta Grossa. Não cheguei ao estrelato, mas era titular no infantil, no juvenil e, depois, no aspirante também. No primeiro quadro de adultos, não havia profissionalismo. Fiz algumas temporadas. O Ateneu Housmann, titular do Guarani, foi convocado para a Seleção Brasileira Universitária e foi para o Rio de Janeiro. E, na mesma época, o outro goleiro foi convocado para o Exército e foi para a Europa. Como só restou eu, o terceiro goleiro, fiz quase meio campeonato no time principal do Guarani – bem garoto e com estatura baixa, mas dei conta. Depois, o Guarani pegou outros goleiros. Foi buscar o Lass, o Rato, que era o apelido dele, em Olinda. Depois, o que estava na Itália retornou e o Ateneu veio para Curitiba e desistiu de jogar futebol. E assim foi a minha vida de garotão.

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Foto do filme “Foi num Carnaval” da “Rodando Filmes”.

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José Wille – Em 1945, o senhor veio para Curitiba cursar Direito na universidade…

 

José Cadilhe – Em 1944, eu cheguei aqui um pouco antes do Natal. Fiz as inscrições para os vestibulares e, no dia 5 de janeiro de 1945, vim em definitivo para Curitiba.

 

José Wille – E a universidade, como era?

 

José Cadilhe – A universidade era bem diferente dessa de hoje. Naquele época, não se admitia um aluno que frequentasse o curso se não estivesse de gravata, de terno. Professor, então, nem se fala! Só faltava pôr uma beca ou traje a rigor. Era um respeito… E nós, da turma de Rui Barbosa, nos formamos em 1949, no dia 5 de novembro, pois era a data do centenário de Rui Barbosa. Nós sempre brincávamos que a última turma decente de advogados era a nossa. Formaram-se 34 advogados apenas. No ano seguinte, eram 180 ou mais. E não existiam outras faculdades. Depois, veio a Faculdade Curitiba – quando estávamos no quinto ano parece-me que ela foi criada. Hoje, proliferam-se as faculdades em tudo que é canto.

 

José Wille – O senhor gostava muito de futebol. E na década de 40, Curitiba já tinha vários times.

 

José Cadilhe – Tinha o Juventus, o Palestra Itália, o Britânia, o Água Verde, o Primavera… Quer dizer, era uma série de clubes que foi desaparecendo ou então extinguindo o setor de futebol, que eram os casos do Primavera e do Juventus. O que fizeram certo, porque o futebol nosso, desde aquele tempo, resume-se ao Trio de Ferro, como era denominado o Atlético, Coritiba e Ferroviário – hoje Paraná Clube. Mas, eventualmente, dava um campeão de Maringá, de Londrina, de Ponta Grossa. Até nesse de Ponta Grossa eu tenho parte, porque o Coritiba ganhou no campo, mas escalou o jogador Agapito, um paraguaio. Ele era da seleção do Paraguai e foi registrado em uma liga do interior, primeiro em Foz do Iguaçu, depois em Guarapuava. Foi transferido para cá como se fosse atleta primário, como se não tivesse nenhum registro de quando era profissional do Sol da América, na capital do Paraguai, Asunción. Aí eu fui constituído advogado do Operário e perdi a ação no tribunal local. Recorri ao tribunal da CBD, atual CBF, e ganhei a causa. Então, o Operário foi realmente campeão no tapetão. E há um fato interessante com que brinco até hoje: o Operário nunca me pagou os honorários. Nós tínhamos acertado 500 cruzeiros, mas eles não me pagaram. Um dia, fui a Ponta Grossa e fui entrevistado na PR J2 pelo locutor local. Ele me perguntou se já recebera. E disse “Não, não recebi nada. Infelizmente o presidente Singer disse que iria me pagar e não me pagou.” Aí entrou no estúdio o Padre Carlos, que era vice-presidente do Operário, e disse “Você tem que levar em consideração a dificuldade. Eu vou mandar fazer uma placa de bronze grande e colocar no estádio dizendo ‘O Operário Ferroviário Esporte Clube é eternamente grato ao José Cadilhe de Oliveira, Zezo’” – que era meu apelido. Perguntei para o padre, isso no ar ainda, quanto iria custar a placa. “Ah, um dinheirão”. “Então, o senhor me dá o dinheirão e pode pôr a giz lá no sanitário do Operário esses dizeres”. Foi um estouro na rádio, extraordinário!

 

José Wille – O fato é que o senhor garantiu para o Operário o campeonato, desclassificando o Coritiba.

 

José Cadilhe – E mais ainda: na sequência do tempo, eu – atleticano roxo – fui por 40 anos advogado do Coritiba Football Club. Fui maravilhosamente bem tratado pela diretoria do Coxa.

 

José Wille – Nenhum conflito de consciência?

 

José Cadilhe – Apenas uma vez. Eu estava na Tribuna de Honra do Coritiba em um Atletiba como advogado do Coritiba. O Atlético fez um gol e eu pulei. Eu, sozinho! Também nunca mais fui assistir lá aos jogos, porque achei que era uma desconsideração com o clube. E até fiz uma brincadeira: a Câmara de Curitiba me deu o título de Cidadão Honorário de Curitiba e o Coritiba Football Club me deu o título de Cidadão Honorário Coritibano, do time.

 

José Wille – Como era o futebol na década de 40? O curitibano ia aos estádios, que eram precários na época?

 

José Cadilhe – Era uma coisa extraordinária! As assistências que lotavam os estádios em clássicos entre o Trio de Ferro e mesmo com outras equipes eram vultosas. Era enorme o número de torcedores, porque não tinha essa regalia de hoje, de televisão, essa simultaneidade – o homem chega à Lua e, no mesmo instante, você está vendo aqui; o Pelé fazia um gol no México e, antes de a bola bater na rede, já estávamos gritando aqui, essa simultaneidade da coisa. Naquele tempo, era tudo mais romântico, com jogadores extraordinários. E tem gente que diz que aqueles atletas, no futebol de hoje, não seriam os mesmos. Seriam, porque futebol, sabendo jogar, joga-se em qualquer time. O futebol de hoje é extraordinariamente mais valorizado no preparo físico e nas táticas. O futebol de antigamente era tão extraordinário que você sabia o time do seu coração e sabia a escala dos adversários. Porque não existiam essas variações, 5-2-2, 4-3-4… Naquele tempo, era goleiro, dois beques, três na linha média e cinco atacantes, com um centro-avante jogando no meio das alas. Tinha o center half, ou centro-médio, que jogava no centro do meio-campo. Então, era fácil. Hoje em dia, você não sabe escalar, porque são várias formações, o que virou quase uma barafunda. Mas o futebol era de qualidade técnica excepcional. Tivemos jogadores maravilhosos!

 

José Wille – Jogador ganhava bem na década de 40?

 

José Cadilhe – No meu caso, não. Eu era quase, como se diz, filhinho-de-papai. Graças a Deus, papai tinha uma condição relativamente boa, pois os jogadores profissionais não eram tão notados quanto são hoje. Os jogadores ganhavam, além daquelas “luvazinhas”, empregos. No Atlético, houve um tempo em que colocaram 15 ou 20 jogadores no estado. O Ferroviário colocava na Rede. O Coritiba arranjava com os empresários, os grandes empresários de Curitiba, os alemães. Há um caso que ocorreu quando o Jandinho foi transferido do Ferroviário para o Coritiba: a Rede, em represália, o transferiu para Marcelino Ramos, onde o vento faz a volta, na divisa com o Rio Grande do Sul. Mas o futebol era romântico, era extraordinário, com bares na cidade! Em Ponta Grossa, um bar era do Operário, outro do Guarani. Aqui, um bar era do Coritiba e outro, do Atlético, não havia mistura. Hoje em dia, você sai nas noites e tem atletas de todos os clubes em altas festanças da vida boêmia da cidade.

 

José Wille – O Anfrísio Siqueira conta sobre as críticas que ele recebeu, porque teria contratado muita gente em 1950 no governo do estado para garantir o time do Atlético.

 

José Cadilhe – Eu posso dizer que eram grandes amigos meus. Ali entrou Jackson, o falecido agora recentemente Ubirajara, o Viana… A maioria dos grandes atletas foi contratada para o estado através do Anfrísio. Era um figurão e até hoje é o grande presidente da Boca. Realmente, ele influenciava. E, naquele tempo, os concursos públicos não tinham aquela obrigatoriedade que têm hoje. Era pistolão, falando português bem claro, e quem mandava no governo fazia e refazia.

 

José Wille – E era uma espécie de salário indireto – o jogador jogava no clube e trabalhava no governo?

 

José Cadilhe – Mas recebia do clube também. Os clubes tinham muitos sócios e as rendas e arrecadações eram divididas um pouco com os atletas. Não havia esses grandes salários e grandes “luvas”. Por exemplo, havia atletas que se registravam por um aparelho de rádio. Uma vez, o Isaac, o centro-médio do Palestra Itália, de saudosa memória, só  renovaria com o Palestra Itália se dessem uma coleção completa de balas Zequinha para ele. É verdade! Ele disse que, para completar a coleção, faltavam duas figurinhas do Zequinha. E o Palestra foi atrás do Sobania, fabricante das balas, e conseguiu a coleção. Só assim ele se registrou no time. Em Ponta Grossa, o Quilasso, para se registrar pelo Guarani, exigiu um rádio que pegasse as estações do Brasil, porque o dele só pegava Ponta Grossa e Curitiba!

 

José Wille – A ambição do jogador era bem diferente naquela época então?

 

José Cadilhe – Era até romântico. Era uma coisa suave, alegre, você tinha prazer. Quando você vestia a camisa de um clube, a vestia realmente, não só a colocava pensando em cifrão.

 

José Wille – Dizem que ser goleiro não é nada fácil, porque jogador vira ídolo, mas goleiro aparece só quando falha. É isso mesmo, já que o senhor foi goleiro?

 

José Cadilhe – Goleiro é uma posição muito ingrata. Parafraseando o que eles diziam dos hunos lá do Átila: “onde os hunos passavam, morria até a grama”. E a posição do goleiro é tão maldita que onde ele joga não tem grama.  Porque, na região embaixo das traves, a grama realmente é escassa. Você joga 89 minutos e meio defendendo tudo e, no último segundo, você falha. É um frangueiro! É realmente uma posição muito ingrata, porque os outros que perdem drible, perdem gol a toda hora, não são tão apupados e tão cobrados depois. Se você é goleiro e deixar passar o “franguinho”, fica marcado.

 

José Wille – O senhor diz que, na década de 40, havia preconceito contra alguns jogadores, como no Coritiba, por exemplo.

 

José Cadilhe – Não era só no Coritiba, não. Era no Brasil inteiro! O Fluminense, para contratar o Orozimbo, o primeiro negro que jogou no time, foi um escândalo internacional. Aqui, o Coritiba, quando contratou os primeiros, que foram o Bananeiro e o Janguinho, que se tornaram expoentes do futebol, também criou celeumas lá dentro, a ponto de se retirarem alguns conselheiros. O Atlético também não tinha… No Juventus, então, era difícil. O Ferroviário, na época, não teve essa situação. Mas, no início, foi difícil o preconceito, porque, se você for bem sério, bem correto, esse maldito preconceito perdura até hoje. Não é só no esporte, não. A gente diz que o Brasil não é um país preconceituoso, mas ele existe, infelizmente.

 

José Wille – Como isto foi mudando? Como foi, por exemplo, para o Coritiba começar a ter abertura?

 

José Cadilhe – Esses atletas que quebraram a tradição eram grandes jogadores. E começaram a ajudar os brancos remanescentes de cada equipe a ganhar títulos. Os brancos viram que, se os negros não jogavam, o time decaía. Então, por serem excepcionais atletas, foi mudando a situação. A raça negra, no mundo todo, tem um domínio extraordinário no setor de atletismo, de basquete, de vôlei, de futebol. A própria seleção brasileira é composta de noventa e tantos por cento de morenos, mulatos ou escurinhos. Quer dizer, eles foram crescendo. O que a raça negra precisa é se conscientizar de que deve crescer tão bem nos demais setores de atividade quanto cresce nos esportes.

 

José Wille – E a administração, a cartolagem no futebol? O senhor também teve participação na presidência da Federação. Como, nas décadas de 40 e 50, administrava-se o futebol?

 

José Cadilhe – A cartolagem existiu sempre. O termo “cartola” não é moderno, não. Já vem de tempos. Porque cartola é aquele chapéu usado só pelos grã-finos e potentados. E o paredo – assim se chamava e depois virou “cartola” – existiu desde que o futebol foi implantado aqui pelo Charles, o inglês que trouxe a primeira bola para cá. Desde aquele tempo, aqui em Curitiba, você ser diretor ou presidente do Atlético, Coritiba, Paraná, do Jockey Clube e da Federação Paranaense de futebol era equiparado a um secretário de estado, pois tinha o mesmo prestígio. Aí você vê que a cartolagem sempre existiu, infelizmente. Só que hoje é mais malandra. Antigamente, o “cartola” sempre brilhava, mas era um pouco mais puro. Fazia as suas mudanças de regra para que seu clube ganhasse, mas tinha muito mais decoro, muito mais cuidado. Hoje em dia, há até representação nas câmaras federais. Eles são medíocres como dirigentes e, entretanto, eternizam-se, porque manobram.

 

José Wille – Os bastidores do futebol sempre foram assim? As decisões de verdade não se davam lá no campo, mas nos bastidores ou no tapetão?

 

José Cadilhe – Os bastidores sempre tiveram ponto marcante não só no futebol, mas em todos os esportes. Até no turfe, que alguns dizem que não é nem esporte. Os bastidores de qualquer atividade são uma vida paralela daquela que aparece para o povo. Fundamentalmente, existe essa situação em qualquer atividade esportiva.

 

José Wille – O senhor conta que não procurou criar um patrimônio pessoal, pois acabava gastando muito ajudando o futebol ou o Carnaval?

 

José Cadilhe – É uma verdade absoluta. Todos os meus amigos sabem que eu cuidei do mundo e não cuidei de mim. Graças a Deus, não tenho passado e nem passarei necessidades maiores. Eu passei a advogar desde o tempo que era acadêmico de Direito. Naquele tempo, tinha uma inscrição na Ordem de solicitador acadêmico. E eu comecei como solicitador acadêmico dois ou três anos antes de me formar. Já advogava quando me formei em 1949, junto com o falecido doutor João de Barros Filho. Então, você vai moldando a sua vida, como eu moldei a minha em quase 50 anos de atividade, e não obtive para mim um rendimento maior.

 

José Wille – Terminando o curso de Direito, no finalzinho da década de 40, o senhor se candidatou uma vez a vereador e acabou perdendo. Por quê?

 

José Cadilhe – Perdi. Aconteceu o seguinte: foi a primeira eleição, no finalzinho da década de 40, com cédulas ainda. Eu era candidato pela UDN, se não me falha a memória. E o falecido Amâncio Moro, que era o prefeito, me deu uma mão para que eu fosse vereador. Acontece que em um bairro, o Capão da Imbuia, me pediram uma torneira pública. No orçamento da época, dava em torno de 97 cruzeiros. Eu não tinha! Eu ganhava as cédulas de propaganda de todo mundo. Eu saía com o carro do dr. Neves Bogado, jogando cédula pela janela e um bando de guris juntava tudo e me devolvia no final da outra praça para eu jogar as cédulas novamente. Eu ia e voltava diversas vezes. Quando o Capão da Imbuia me pediu a torneira, falei com o Amâncio para colocá-la. E ele disse “Esses abaixo-assinados são todos frios. Nós vamos gastar e eles não te elegem, eles não vão votar em você”. Apesar de ser um bem público, ele não quis. Mas me ajudou em outras coisas – pôs lâmpadas em umas quadras lá. Eu sei que perdi a eleição por menos de 29 ou 31 votos.

 

José Wille – Essa torneira foi decisiva?

 

José Cadilhe – Eu tinha um abaixo-assinado com quase trezentos nomes. Eu perdi por 30 votos, fiquei na quarta suplência e com pouca diferença. O que ficou na primeira suplência ficou por 3 votos! E tive muito mais votos anulados do que a diferença que precisava. Se eu tivesse colocado a torneira pública, teria sido vereador! E daí, se gostasse da coisa, talvez até hoje continuaria sendo.

 

José Wille – Teria feito uma outra carreira, não é?

 

José Cadilhe – Uma outra carreira, exatamente!

 

José Wille – A falta que fez uma torneira…

 

José Cadilhe – Uma torneira… Deixou de jorrar água para mim. Ou jorrar votos.

 

José Wille – O Carnaval foi seu interesse em grande parte da vida. Na década de 40, quando o senhor chegou aqui, como era o Carnaval de Curitiba?

 

José Cadilhe – O Carnaval de Curitiba antecedeu minha vinda para cá. Desde 1925 – que é de quando temos as primeiras notícias – existia um bloco famoso, o Kananga do Japão, que chegava a sair com quase 300 componentes. Aquilo era bloco mesmo, como o próprio nome já diz, e eles saíam fantasiados de orientais. O Kananga abriu o caminho. O Carnaval era extraordinário em Curitiba! Os bailes carnavalescos dos clubes em Curitiba eram considerados os mais chiques do Brasil. E tinha aqui o famoso corso, o desfile dos carros alegóricos e dos carros comuns. Como os carros antigos eram conversíveis, toda e qualquer capota dos carros arriava e as famílias colocavam lenços bonitos, lenços grandes, toalhas, e as famílias iam em cima. O corso dava toda a volta na praça Osório, seguia pela Rua XV até a praça Santos Andrade e voltava. Não parava um minuto e não tinha espaço. Não sei calcular, mas tinha carro lá que era uma barbaridade. Jogavam tanto confete e serpentina que as autoridades tinham que parar o desfile para retirá-los, porque os carros não podiam rodar na Rua XV.

 

José Wille – A cidade era pequena, mas a participação era muito grande então?

 

José Cadilhe – Extraordinária! Por quê? Porque não eram oficializados os festejos. Depois que se oficializaram os festejos, com muita regra, impôs-se que Curitiba também teria que ter escolas de samba. E escola de samba precisa ter amor e preponderância da raça negra, que é a que mexe com tudo, principalmente em samba, em música e em esporte. Nós tínhamos, naquela época, uma coisa muito bonita. Mas o corso deteriorou-se, porque, primeiro, os carros conversíveis começaram a desaparecer; segundo, proibiram o uso de lança-perfume, que era o dopping da época. Proibiram os mascarados, que lá no Rio chamavam de clowns – palhaços em inglês. Começaram a ter que pedir licença para desfilar, ter que pedir licença para sair com menores, ter que pedir não sei mais o quê… Oficializaram de tal modo o Carnaval em Curitiba, como em todo o Brasil, que ele se tornou quase que uma parada em vez de um desfile propriamente dito. Então, você tem que ter cuidado com a coreografia, cuidado com isso, cuidado com aquilo. Não pode deixar que um atravesse o samba, e tudo aquilo fica muito ridículo. No tempo de bloco, era livre. Você ou cantava música conhecida ou fazia a música do seu bloco. Os Embaixadores da Alegria nós fundamos em 1948, com o nome de Cevadinhas do Amor.

 

José Wille – O senhor foi o fundador?

 

José Cadilhe – Sou o fundador. Fui presidente e sou o presidente até hoje.

 

José Wille – E foi a que mais durou?

 

José Cadilhe – Até hoje! Ininterruptamente, é a mais antiga de todas. A Colorado era um pouco mais velha do que a Embaixadores, mas ela ficou fora de alguns carnavais.

 

José Wille – A dependência de verbas oficiais, de participação de prefeituras – o senhor acha que foi outro problema?

 

José Cadilhe – É um ponto nevrálgico. Se você tirar esta verba, não sobrevivem aqui em Curitiba mais do que três escolas das que existem hoje, porque elas não têm condições de, sozinhas, fazer a manutenção de uma escola de samba para desfilar uma ou duas vezes no Carnaval.

 

José Wille – O senhor falou na composição étnica da cidade. É outro problema? É por isso, talvez, que o Carnaval de Curitiba tenha tantas dificuldades?

 

José Cadilhe – Sim. Porque aqui nós somos descendentes de poloneses, alemães, ucranianos… Você vê o Carnaval de Nice, na França, que é uma coisa maravilhosa, mas é um Carnaval quase estático. Só não é estático porque no desfile eles se movimentam. Mas não tem essa malemolência, essa ginga do Carnaval brasileiro. Nossa etnia aqui em Curitiba era muito germânica, eslava, europeia, ao contrário da raça negra, que já tem o dom da dança e do esporte. Se a preponderância fosse maior aqui em Curitiba, talvez o Carnaval tivesse um incremento maior.

 

José Wille – Dá para ter idéia da época quando começou a decair o Carnaval de rua em Curitiba?

 

José Cadilhe – Quando começaram a oficializá-lo. Quando começaram a fazer os concursos obrigatórios. Quando começaram a exigir do bloco isso, aquilo e aquilo.

 

José Wille – Em que época?

 

José Cadilhe – A prefeitura pagou e exigiu! A época foi, talvez, o final da década de 40… Nas primeiras vezes em que nós saímos com a Embaixadores, em 1948, como Cevadinhas do Amor, nós recebíamos algum dinheiro: a primeira vez foi da Brahma; depois, Antárctica. Recebemos de uma série de empresas…

 

José Wille – E saíram fantasiados de garrafas?

 

José Cadilhe – Foi a primeira fantasia nossa. E o nome Embaixadores da Alegria decorreu de que, quando entramos no Curitibano, ainda como Cevadinhas do Amor, que era o nome do bloco, nós animávamos o baile. Eles diziam “chegaram os embaixadores da alegria!”. Aí, em uma reunião, depois de dois ou três anos, dei a sugestão de que fôssemos os Embaixadores da Alegria. E muita gente achava que o nome era muito comprido, mas eu disse que Embaixadores da Alegria iria empolgar mais. Vencemos o pleito e virou Embaixadores da Alegria.

 

José Wille – Quais são as escolas que mais marcaram na história do Carnaval?

 

José Cadilhe – Além da Embaixadores, é lógico, a Não Agite foi extraordinária. A Oásis da Alegria, que era da turma da Base Aérea de Curitiba, foi excelente. Teve a Dom Pedro, que era filiada à sociedade de mesmo nome. A Mocidade Azul, a Bola Preta e a Sapolândia… Tivemos também a Verga Mas Não Quebra, cujo presidente era uma coisa extraordinária, o Chocolate. Ele vivia absolutamente etílico. Ele fez uma das coisas mais extraordinárias que eu já vi, até hoje, em Carnaval. Foi no ano em que o prefeito, o meu querido amigo Saul Raiz, não deu verba para o Carnaval, pois a prefeitura não estava em boa situação. E o Chocolate disse para todos nós “vão ver o que eu vou fazer com o prefeito”. E veio ele com a escola, que inclusive tinha um erro no estandarte – estava escrito “Verga Mais Não Quebra”, sendo que “mais” é advérbio de quantidade. Chegou em frente à prefeitura, parou, silenciou a bateria e disse para o prefeito “Veja o que o senhor fez para mim! O senhor não deu a verba e eu tinha prometido para a minha mãezinha que eu ia comprar uma geladeira com essa verba. Com que cara eu vou ver a minha mãe lá em casa?”. Quer dizer, ele pegava o dinheiro e não punha na escola. Punha pouca coisa, mas ele era folclórico.

 

José Wille – Cada escola tinha um reduto. O de vocês era o bar do Stuart?

 

José Cadilhe – Realmente, o reduto nosso era lá. Nós começamos como Cevadinhas do Amor na sociedade Seminário. Depois, quando passamos a Embaixadores, nos mudamos para o Thalia e lá ficamos doze ou treze anos. Mas o reduto, que era a nossa sede, como você diz, era o Stuart. Temos até programada uma reunião no Stuart nesse ano, com a velha-guarda – todos nós com a camisa da Embaixadores.

 

José Wille – Nos bares acontecia, muitas vezes, o ensaio informal durante o ano todo?

 

José Cadilhe – Ah, sim! Você punha meia dúzia de cervejas e duas ou três caipirinhas e ensaiava até as 4 da manhã! Nós quebramos uma tradição, pois a maioria dos bares não deixava fazer cantoria. O Stuart foi o primeiro bar em Curitiba que colocou cadeiras e mesas na calçada, o que, aliás, consegui como advogado. Deu tão certo que, depois, o Stuart quis manter as mesas na calçada, mas não deixaram. Fui o advogado do Bar Mignon, que fez o requerimento para conseguir isto também, e obtivemos a licença. E, hoje, bares com mesas na calçada há muitos.

 

José Wille – Os clubes, nessa fase mais conservadora da cidade, entre 1940 e 1950, não aceitavam a presença das escolas?

 

José Cadilhe – Não. Nós quebramos uma tradição no Clube Curitibano, no Thalia, no Círculo Militar, que não deixavam entrar blocos ou escolas de samba. Quando nós entramos no Curitibano pela primeira vez, com o presidente Jofre Cabral e Silva, foi um escândalo! Teve gente que queria até sair. No fim, tornava-se mais difícil sair da sociedade do que entrar, por causa das escolas. Nós entrávamos no Círculo, no Curitibano e no Thalia e eles diziam “vocês dão três voltas no salão e depois saem. Não pode ficar ninguém!”. Nós dávamos três voltas e diziam “dá mais três” e assim ia. O Atlético dava baile na Baixada. Quando chegamos lá, eles disseram que teria uma mesa com sanduíches, cerveja e guaraná depois das três voltas no salão. Depois das voltas, nos deram outra mesa, que tinha até whisky!

 

José Wille – E o preconceito racial também existia no Carnaval, na entrada dos clubes?

 

José Cadilhe – É o ponto nevrálgico em que a gente não gosta realmente de tocar, mas acontecia. Para os primeiros negros que colocamos na Embaixadores, para que pudessem entrar nos clubes, fazíamos fantasias de palhaço, pintando o rosto inteiro dessas pessoas. Até nesse ponto, felizmente, não foi muito prolongado o preconceito, mas existiu.

 

José Wille – É mais recente a presença da sensualidade nas fantasias e na música? Não existia isto no Carnaval antigo?

 

José Cadilhe – O Carnaval era uma festa familiar. Os clubes faziam a comissão de censura. Você chegava lá com a família e passava por uma salinha onde estavam os censores para ver se a sua fantasia estava de acordo ou não estava. Mas isso também foi caindo. Essa licenciosidade, essa volúpia toda de sexo e tudo mais, isso nunca existiu.

 

José Wille – O Carnaval nos clubes, na década de 80 principalmente, foi acabando em Curitiba e se transferindo para o litoral.

 

José Cadilhe – É uma verdade. Com as melhorias que nossas praias obtiveram, com clubes náuticos e aquelas coisas todas, com as estradas e sua infraestrutura melhorando, e também por causa das praias vizinhas em Santa Catarina, o curitibano começou a fugir. Hoje em dia, de todos os clubes de Curitiba, não há 10% que façam baile de Carnaval. Entre os maiores, praticamente um ou dois.

 

José Wille – Também o samba foi uma grande paixão sua – cantando ou compondo. O samba tinha dificuldade de entrar aqui no Sul do país?

 

José Cadilhe – Eu acho que não há essa dificuldade. É mais propaganda dos inimigos cordiais que a gente tem, porque o samba é uma música que toca muito no fundo de cada pessoa. Porque o samba tem uma série de gêneros: o samba lento, o samba canção, o sambinha… O samba, em princípio, parecia que estava fadado até a desaparecer. Mas onde existe um bom sambista, um bom conjunto de samba, ele brilha em qualquer canto que você for, pois tem público para isso. Quando trazemos para Curitiba grandes artistas da música popular brasileira, é um sucesso extraordinário. Curitiba tem campo de sobra para o samba. Só que essa parafernália existente na mídia de rádio, de televisão e da imprensa hoje impinge para a gente aquilo que eles querem vender. Antigamente, para fazer sucesso, o cantor tinha que ter voz e cantar. O samba, a valsa, a marchinha, para fazer sucesso, tinha que ter conteúdo. Hoje em dia, não sendo mudo, já pode ser cantor de rádio. Sabendo gingar com os bumbuns, qualquer mocinha pode ser cantora de rádio. Antigamente, você tinha que ter voz e postura diante de uma câmera, diante de um microfone, diante de um palco. Hoje, não. Se você fizer um tremelique meio diferente, já é alçado à glória.

 

José Wille – Falando mais da vida curitibana nessas fases que o senhor acompanhou tão bem, de 1940 até 1960: quais eram os pontos de encontro, os bares, da cidade?

 

José Cadilhe – Curitiba foi uma beleza em matéria de bar. O Stuart sempre foi o carro-chefe dos bares. Mas não se podem esquecer do Cometa e do Bar Paraná, que era um misto de bar e restaurante maravilhoso. Nós tivemos o Buraco do Tatu, famosíssimo – era tão pequeno que, quando entrava freguês, saía o dono; quando entrava o dono, saía o freguês. Mas era frequentado pela melhor sociedade de Curitiba. Era uma coisa extraordinária! E fora os mais antigos, o famoso Bar do Olímpio, que tinha o melhor pastel de Curitiba. Tínhamos o Esplanada, outro extraordinário bar da época. Tem até hoje aquele ali na Água Verde – que agora me falha a memória – Bar do Homero…?

 

José Wille – O Bar do Hermes…?

 

José Cadilhe – O Bar do Hermes, exatamente! Setenta e seis anos pesam um pouquinho… Então, o bar sempre foi um lugar meio sacrossanto para a boêmia. E do bar, parafraseando “lar, doce lar”, a boêmia fez “bar, doce bar”. E é no bar que a gente conversa e que você, em uma letra de samba, interpretado muito bem pelos cantores populares do Brasil, cantando sambinha, tem a melhor maneira de se conversar. Você, numa roda de samba… Mas tem que saber cantar, porque o cantor de bar com voz estridente, com a parafernália moderninha de hoje, não! O verdadeiro cantor de bar é aquele que faz o acompanhamento baixinho, que faz com que se escute e se perceba o samba.

 

José Wille – E a Rua XV como ponto de encontro, quando eram poucas as opções…

 

José Cadilhe – A Rua XV era tudo! Nem se chamava ainda Rua das Flores, era realmente Rua XV. Mas aqueles passeios da mocidade… As famílias saíam à noite para ver vitrines. Hoje em dia, se sair à noite para ver vitrine, você fica pelado na rua, do chefe à criança de colo. Você passeava e via, por exemplo, as entradas e saídas de cinema. E proliferavam, nessa época, cinemas na Rua XV. Era uma coisa maravilhosa ver os rapazes postados para ver a entrada ou a saída do cinema! Na saída, tinha mais gente, principalmente nas sessões mais cedo. Então, ficava todo mundo ali aguardando. Havia também todos esses bares e cafés e, mesmo com o trânsito de carros, era uma boa vida noturna. Depois, com o advento do Calçadão, modificou-se um pouco. Hoje, até é perigoso, se não tiver um policiamento por perto. E é tão bonita a avenida. Agora, eles vão revitalizá-la, vão fazer mais umas modificações…

 

José Wille – O cinema era fundamental, antes da televisão. Era o grande ponto de lazer.

 

José Cadilhe – Você tinha o Cine Palácio, o Odeon, o o Ópera, o Avenida… Uma série de cinemas, que tinha uma assistência na primeira e na segunda sessão. Alguns não tinham duas sessões, mas passavam duas, três fitas. Começavam às oito horas e iam até quase meia-noite. Os cinemas eram a diversão. O rádio também era incipiente, a potência ainda era fraca e só começou a melhorar quando vieram as ondas curtas. Você pegava as rádios de Buenos Aires em ondas curtas, uma coisa extraordinária! A rádio Tupi e a rádio Nacional começaram também em ondas curtas. A partir daí, o rádio começou a centralizar melhor a atenção.

 

José Wille – E o rádio, em Curitiba, crescia também…

 

José Cadilhe – O rádio em Curitiba cresceu… Houve época em que era um dos principais do país. Tinha a B2, a Guairacá, que eram rádios que comandavam programas de auditório maravilhosos. Eram rádios que efetivamente tinham vida própria, com artistas locais. Hoje em dia, tanto nas televisões quanto nas rádios, você dificilmente vê um programa local.

 

José Wille – Em 1960, quando chegou o Canal 12 e, logo a seguir, o canal 6, o curitibano não acreditava que a televisão fosse dar certo em Curitiba. Por quê?

 

José Cadilhe – O Nagib Chede mesmo dizia que o pessoal achava que Curitiba não estava preparada para receber a televisão. Que eles estavam se metendo em uma aventura e iriam dar com os burros n’água. Mas, infelizmente para os pessimistas e felizmente para nós, deu certo.

 

José Wille – As mudanças no centro de Curitiba, quando Jaime Lerner foi prefeito, no começo da década de 70, fechando a Rua XV para fazer o Calçadão… O senhor foi advogado dos comerciantes contra a prefeitura.

 

José Cadilhe – Quando falaram que iam fechar a rua com o Calçadão, nós éramos advogados de 3 firmas que se localizavam entre a Marechal Floriano e a Monsenhor Celso. Impetramos o mandado de segurança contra o ato da prefeitura de fechar a Rua XV e fazer o Calçadão. Obtivemos, inclusive, a liminar, mas aconteceu que a prefeitura, de madrugada, arrebentou a rua com tratores, estourando todo o antigo calçamento. Quando os oficiais de justiça foram intimar a prefeitura, ela já tinha feito o estrago maior. Então, começou-se a brigar, porque o juiz queria que fosse recomposta a rua como estava e, daí, foram se fazendo acertos, a ponto de se chegar a abater impostos, como se faz até hoje – os arregos corretos, arregos no bom sentido. O comércio dizia que, com o fechamento do trânsito e do fluxo de veículos, iriam cair de 60% a 70% as vendas. E os catastróficos achavam que iriam falir no dia seguinte. Mas prevaleceu o bom senso e, hoje, uma das coisas bonitas de Curitiba é essa que é uma das primeiras ruas de pedestres do país.

 

José Wille – O Passeio Público também já foi um grande ponto de encontro social da cidade.

 

José Cadilhe – Mas era do alto mundo grã-fino de Curitiba passar as tardes no Passeio Público, ir lá andar de barco – naquele tempo, era barco e não pedalinho. As famílias iam lá e havia retretas que eram com bandas, tinha o coreto… Então, o Passeio Público estava no auge e era um dos pontos de referência da alta sociedade de Curitiba.

 

José Wille – Corrida de cavalo também era outra opção curitibana?

 

José Cadilhe – O Prado Velho, lá na região do Guabirotuba, fez cada tarde de turfistas maravilhosa! O Grande Prêmio Paraná, por exemplo, era um dos grandes prêmios do turfe brasileiro. Depois, quando mudou para o moderno, onde se encontra hoje, causou um impacto favorável, pois Curitiba realmente se tornou adulta no sentido do turfe.

 

José Wille – O senhor mora perto da Boca Maldita, no centro da cidade, está sempre presente ali e é tido como uma das figuras mais marcantes da cidade.

 

José Cadilhe – É bondade sua, mas a verdade é que o samba, o Carnaval e o futebol popularizam uma pessoa. E o meu gênio ajuda. Eu tenho um gênio alegre. Eu sempre brinco que alegro até guardamento, enterro, porque eu nasci para ser alegre. Eu nasci para ajudar e não para ser ajudado. Então, dentro dessas minhas características, eu vou levando uma vida que, se tenho inimigos, precisam apresentá-los a mim. Há alguns invejosos…

 

José Wille – Mas inimigos declarados, não?

 

José Cadilhe – Não! Até se tenho, seria interessante que me apresentassem, porque, quem sabe, eu conquisto como amigo!

 

José Wille – O senhor ganhou todos os títulos do Paraná, da prefeitura de Curitiba, da Câmara Municipal…

 

José Cadilhe – Eu tenho todos os títulos de Curitiba – Cidadão Honorário de Curitiba, Vulto Emérito de Curitiba, fui tema de Carnaval, fui enredo de escola de samba, fui Bicho do Paraná, tem quase 100 troféus esportivos, de todos os esportes, e treze torneios com meu nome. Eu disse em uma cerimônia da Câmara que eu era um homem feliz, porque havia recebido flores na vertical. Quer dizer, vivo e não na horizontal. Esse foi o meu padrão de vida.

 

José Wille – E, para finalizar, o senhor disse que, na década de 80, houve a grande transformação, quando aquela velha Curitiba foi morrendo e outra cidade foi surgindo. Como o senhor acha que isso vai prosseguir?

 

José Cadilhe – Existe muita coisa boa no modernismo, mas não se pode esquecer o passado. Curitiba, até há bem pouco tempo, tinha um ranço de cidade pequena, mas um ranço bom. Não coisa velha, estragada. Curitiba ainda era provinciana, as famílias se visitavam, você podia ir passear na Rua XV, ver vitrine, ia para os parques… Mas essa modificação, lamentavelmente, é mundial, não é coisa só nossa, de Curitiba. A transformação veio para ficar e para cada vez mais transformar. Mais uns cinco ou seis anos, não sei mais o que será. Porque, na verdade, hoje em dia, o progresso chegou com tanta força que somos prisioneiros de nós mesmos e quem tem mais liberdade são os facínoras. Nós, as famílias, somos prisioneiros até da nossa própria casa, onde chegamos a pôr grades e toda uma parafernália e, assim mesmo, somos assaltados.

 

Fotos históricas de Paulo José da Costa

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Clique aqui para conhecer o blog de Paulo José da Costa, da Livraria Fígaro. Ele faz um grande trabalho de preservação histórica do Paraná, com fotos e documentos. 

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Foto do alto do Morro de Caiobá em 1945.

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Memória Paranaense: Vida e poesia de Helena Kolody

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O Portal JWS está publicando todas as entrevistas da coleção de livros “Memória Paranaense”.  Aqui está a de Helena Kolody.

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Helena Kolody (1912-2004): Um dos nomes mais importantes da poesia no Paraná. Ficou marcada principalmente pelo haicai, uma forma poética de origem japonesa, cuja característica é a concisão, ou seja, a arte de dizer o máximo com o mínimo. Foi a primeira mulher a publicar haicais no Brasil, em 1941. Eleita para a Academia Paranaense de Letras, passou a ocupar a cadeira n.º 28. Foi admirada por poetas como Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminski, com quem teve uma grande relação de amizade pessoal e literária. Gravação de 1998.

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Gravação do programa “Memória Paranaense” em 1998 com Helena Kolody. Ao centro o escritor Roberto Gomes.

 

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José Wille – A sua família é ucraniana…

 

Helena Kolody – Meu pai veio em 1911 com 13 anos, porque meu avô tinha morrido numa epidemia de cólera e minha avó tinha mais um filho de quatro anos e uma filhinha de alguns meses e não quis ficar sozinha na Ucrânia, nem tinha condições. Como a família dela imigrara para o Brasil, levada pela propaganda que se fazia do país, a terra onde corriam rios de leite e mel, onde tudo era fácil,  ela veio junto com os filhos e lutou muito. Meu pai, desde os 13 anos, já trabalhava para ajudar a família. Minha mãe veio mais tarde para o Brasil. Meu avô materno era administrador de uma herdade e, lendo os jornais, viu que estava se aproximando uma guerra e, como tinha quatro filhas e só um filho, na época de ser convocado, não quis que o filho morresse na guerra. Então, com a grande propaganda do Brasil, veio como imigrante, em 1911. Minha mãe, a dona Vitória, era uma moça de dezoito anos quando conheceu meu pai, que já estava com vinte e nove, apaixonaram-se e casaram-se em janeiro de 1912. E eu nasci em outubro daquele ano.

 

José Wille – A vida para eles começou no interior do Paraná, na cidade de Cruz Machado…

 

Helena Kolody – Em Cruz Machado. O papai trabalhava como agrimensor prático com o doutor Artur Martins Franco, que estava abrindo uma estrada, e lá conheceu a minha mãe, que morava com a família na cidade.

 

José Wille – Foi um começo de vida muito difícil não existia energia elétrica e água encanada?

 

Helena Kolody – Era tudo muito difícil, tudo muito primitivo.

 

José Wille – O incentivo ao estudo e à leitura vinha de seus pais?

 

Helena Kolody – Muito! Eu me lembro ainda menina, em Três Barras, onde meu pai foi comerciante – à noite, o lampião no meio da mesa, mamãe de um lado e papai do outro a lerem. Lembro que ela lia em ucraniano, tanto que eu sei de cor algumas coisas do Tará Schewtchenko, considerado até hoje o maior poeta ucraniano. E, como tinha sede de leitura também, aprendi com ela.

 

José Wille – Quantos irmãos eram?

 

Helena Kolody – Na verdade, nós fomos seis. Um morreu bem pequenininho, de incompatibilidade de fator RH, lá mesmo em Cruz Machado. Depois, quando já morávamos em Rio Negro, éramos eu, as duas irmãs e o José, e mamãe teve mais um menininho que morreu com alguns meses, no desmame, com infecção intestinal. Viemos para Curitiba, três mulheres – eu, Olga e Rosinha – e o rapaz que era o último, o José. Aqui, nós três fomos normalistas, professoras. José se formou em Engenharia e trabalhou em Presidente Prudente, no estado de São Paulo, até se aposentar; depois, veio para cá. Há alguns anos, tive a infelicidade de perder a mais nova, a Rosa, e o José também.

 

José Wille – Como foi a sua infância no interior?

 

Helena Kolody – Foi uma infância linda, a gente tinha o mundo para brincar! Brincava no quintal, na rua, via os passarinhos, subia em árvores… Essa vida mais sadia… Andava no rio, atravessava o rio…

 

José Wille – Você estudou em Rio Negro. Era uma aluna muito dedicada?

 

Helena Kolody – Muito! Eu tinha sede de estudar e, em Três Barras, não havia uma escola que prestasse, quem dava aula era a filha do coletor. Minha tia, que era professora primária, veio passar o Natal conosco e foi tomar minha lição, mas eu não sabia nada. Então, ela disse para o meu pai que eu estava perdendo tempo naquela cidade e que eu poderia ir com ela para Rio Negro, se ele permitisse. Fui e fiquei três anos morando com ela em Rio Negro, para tirar o primário.

 

José Wille – O primeiro livro que você ganhou é uma boa recordação…

 

Helena Kolody – A gente começou a aprender a ler com as coisas que a minha tia escrevia no quadro e a gente copiava. Então, ela me trouxe a cartilha, e lembro que tinha uma figura colorida na primeira página, uma menina e um gatinho. A letra era cursiva e dizia “Uma menina e um gatinho. O gatinho é da menina. A menina chama-se Laurita. Como se chama o gatinho? O gatinho chama-se Neve”. Veja que eu tinha sete anos e hoje eu tenho oitenta e cinco e não esqueço esta primeira página e essa primeira leitura, de tanta fome que eu tinha de ler. Aprendi a ler em um mês!

 

José Wille – E gostava também da biblioteca…

 

Helena Kolody – Mais tarde, quando aprendi a ler, a biblioteca de Rio Negro, a biblioteca de todas as escolas e, aqui, a Biblioteca Pública do Paraná sempre foram a minha fonte de leitura, pois eu não podia comprar livros. Hoje, tenho uma biblioteca razoável, mas, na época, não podia comprar livros, e adorava ler. Então, as bibliotecas serviam muito para a gente. E, em Rio Negro, eles tinham aquela coleção de Thales de Andrade, das grandes lendas da humanidade, trocadas em miúdos, em livrinhos muito bem impressos, coloridos. Aquelas histórias que a gente lia e não esquecia mais, porque tinha figuras também: “A Rosa Mágica”, “As Três Cabeças de Ouro”… Grandes lendas de antigamente, todas em linguagem para criança.

 

José Wille – Na sua juventude, o cinema estava chegando, mas você gostava mesmo era dos livros…

 

Helena Kolody – Muito. Mas ia também a festas. Quando era mocinha, ia passar as férias em Rio Negro. Eu era normalista e o meu tio Antônio Procopiak era um pé-de-valsa, gostava de bailes. Até cheguei a fazer parte de um grupo de Carnaval ganhamos um prêmio, as ciganas cantando “Ramona”… Quer dizer, participei dessas coisas também.

 

José Wille – A sua chegada em Curitiba com a família foi com que idade?

 

Helena Kolody – Nós viemos para cá em 1928. Eu tinha 14 anos.

 

José Wille – E o seu pai, aqui, tornou-se comerciante.

 

Helena Kolody – Na rua Itupava esquina com a Sete de Abril ele abriu uma casa de comércio, que durou alguns anos. Ele vendia fiado, principalmente para os amigos. E acabou precisando fechar o negócio, porque, quando eles recebiam, iam comprar em outra parte; quando não tinham, compravam fiado lá em casa.

 

José Wille – Como era a Itupava, essa parte de Curitiba, naquela época?

 

Helena Kolody – O quadro urbano acabava na rua Ubaldino do Amaral. Não havia luz elétrica, nem água encanada, nem calçamento. A Itupava era uma rua barrenta e passava do lado de um riozinho fundo, onde uma vez escorreguei e caí dentro. A gente estudava à luz de lampião e, quando saíamos à noite, vínhamos em uma escuridão total, porque na rua não tinha luz elétrica.

 

José Wille – Era uma região de chácaras este primeiro Alto da Itupava?
Helena Kolody – É isso. Tinha chácaras e tinha casas isoladas mesmo, casas simples com quintal etc.

 

José Wille – Que descrição você faz de Curitiba dessa época as décadas de 20 e 30?

 

Helena Kolody – Era uma vida sossegada, uma vida boa. Todo mundo tinha frutas e verduras no quintal. A gente chegava da escola e a mãe dizia “Agora você vai fazer uns canteirinhos para plantar alface, semear não sei o quê…”. E, na hora do almoço, “vai buscar um pezinho de alface para fazer uma salada”. Tudo era fresquinho…

 

José Wille – Sua preocupação com o que seu pai esperava era muito grande ou seja, a necessidade de estudar para corresponder à expectativa que ele tinha…
Helena Kolody – Ele fazia questão que a gente estudasse. Ele lutou muito e, depois que fechou o comércio, teve de ir embora, para trabalhar como contabilista no escritório da madeireira Lamber, onde meu tio João era gerente. Era a maior serraria do Sul do Brasil – dia e noite a serraria trabalhando e os vagões carregados de tábuas sendo levadas para São Paulo, para Santos, e depois embarcadas para o exterior. O titio o levou e a mamãe ficou conosco. Então, a gente estudava e eu pensava “Tenho que dar para o papai essa alegria”, porque ele queria que nós estudássemos. Os nossos vizinhos ucranianos diziam ao papai “Helena tem que trabalhar na fábrica” pois trabalhavam na fábrica de fitas mas papai dizia “Não! Ela vai estudar”. Então, havia esta persistência do papai, de fazer questão dos estudos… Ele ficava tão feliz de eu tirar boas notas! E as minhas notas foram as maiores e isso me serviu mais tarde.

 

José Wille – Você chegou a ser nomeada professora por esse motivo: pelas melhores notas que tinha na sua turma.

 

Helena Kolody – Na Escola Normal de Ponta Grossa, fui nomeada por causa das notas. Escrevia muito e os jornais tinham uma página literária. O filho do cônsul da Itália na época publicava o que os jovens escreviam em uma revistinha chamada “O Garoto”. Os jovens se reuniam muito, conversavam, e havia esta oportunidade de a gente publicar as bobagens que escrevia, só para dar risada. Hoje, por exemplo, os jornais não têm uma página literária, mas antigamente sempre tinha uma na qual todo mundo podia colaborar.

 

José Wille – A poesia tinha um valor maior?

 

Helena Kolody – Tinha um valor maior. Hoje, eu acho que o mundo é muito racional, muito tecnológico. Não sei se é por causa da premência do excesso de população, não sei o que é…

 

José Wille – Nas décadas de 20 e 30, era comum a reunião familiar ou de amigos para discutir literatura, para cantar?

 

Helena Kolody – Era muito comum. Informalmente, nos reuníamos com o professor Calderari, na rua Comendador Araújo, todos os domingos, no Salão Nobre do Colégio, a partir das dez até o meio-dia. E um puxava uma poesia, outro dizia outra, um trazia o jornal e dizia “Olha, eu li isso, li aquilo.”… Então, era uma conversa e, às vezes, um subia na tribuna para recitar uma poesia… Era tudo uma brincadeira.

 

José Wille – Essa primeira publicação, “O Garoto”, reunia esses jovens?

 

Helena Kolody – A poesia “A Lágrima”, por exemplo, era uma coisa chorosa, mas havia uns que faziam brincadeiras com ela. Um deles – não sei quem, por que se usava pseudônimo – caçoava daquela exigência de métrica na poesia, no soneto, desta forma: “A gente sempre era pobre idiota. General marinético, pó de pedra, flores singélicas que a maldade medra, vidros moídos fritadas de compota…”. E acabava assim: ”No azul da mata navegando a esmo, nas profundezas de Horácio Paixão, não compreenderam? Pois é isso mesmo!”. Então, uma coisa bem maluca.

 

José Wille – Mas foi grande uma emoção ter o seu primeiro trabalho publicado…

 

Helena Kolody – Meu primeiro trabalho publicado! Infelizmente, caí na ingenuidade de emprestar. Muita coisa perdi por emprestar aos outros…

 

José Wille – Aos 19 anos, surgiu a ideia de publicar seu primeiro trabalho?

 

Helena Kolody – O meu primeiro livro, “Passagem Interior”, eu pensava em publicar, porque meu pai ia fazer 60 anos e queria lhe fazer uma surpresa. Naquele tempo, a Escola Técnica do Paraná tinha um professor, o Lauro Medeiros, que era muito amigo dos jovens escritores. Então, fui até ele perguntar o que precisava para publicar meu livro de poesias. Os alunos aprendiam artes gráficas, mas produziam apenas um mostruário. Como eu queria que ficasse perfeito, eu acompanhei o processo, inclusive comprando o papel pergaminho de quarenta quilos, sem marca d’água. Fizeram quatrocentos livros e me enviaram para outro lugar, para costurar e fazer a capa – que foi obra de minha amiga Euvídia Leite.

 

José Wille – E seu pai gostou do presente?

 

Helena Kolody – Ele já tinha morrido e não chegou a ver o livro. Quando eu estava preparando o livro, meu pai teve um enfarte e morreu. Então, não quis publicá-lo. Mas me convenceram a publicá-lo, em memória dele. O livro diz assim “Sobre o teu túmulo, pai, a coroa de flores com que sonhei adornar teus cabelos brancos.” Eu queria festejar os 60 anos dele, então pus sobre o túmulo a coroa de flores.

 

José Wille – A sua grande paixão foi a carreira como professora?
Helena Kolody – Nasci professora e sempre amei ser professora! A poesia foi um canteiro de flores que nasceu à beira do meu caminho do magistério.

 

José Wille – Foram 32 anos na sala de aula…

 

Helena Kolody – Eu sempre procurava misturar a poesia nas coisas de escola, dar um jeito… Quando fui professora em Jacarezinho, nós levamos uma peça de teatro. Sempre a poesia era misturada com literatura.

 

José Wille – Havia a preocupação de trazer o teatro e outras atividades culturais para junto dos alunos?

 

Helena Kolody – E até de amar a palavra de outra forma! Em Ponta Grossa, eu fui professora de metodologia e, naquele tempo, as crianças viam as coisas passivamente. Por exemplo, para descrever uma estampa que tem uma menina com uma bola, eu estudei e aprendi um método ativo. Então, chegava na sala, pegava os alunos e dizia “Agora vocês são repórteres e vão fazer uma entrevista, sem barulho”. Eles saíam de lápis e papel na mão e iam entrevistar a diretora, a cantineira ou alguém que estava entrando na escola, uma porção de gente… Enchiam, às vezes, duas páginas e traziam para a sala de aula. A partir daí, comentávamos o que estava errado, o que não estava. E eles ficavam entusiasmados, faziam com prazer uma redação! E eu dizia para as mães “Vejam como isso é muito mais importante do que dizer ‘eu vi uma menina com uma bola…’”. Era uma coisa viva!

 

José Wille – Sua disciplina principal era Biologia?
Helena Kolody – A principal era Biologia, mas, em Ponta Grossa, eu dava também prática de ensino, metodologia.

 

José Wille – Foram muitas as cidades do interior onde você trabalhou como professora?

 

Helena Kolody – Eu comecei trabalhando no primário em Rio Negro e, depois, trabalhei quatro anos no Normal de Ponta Grossa. Voltando para Curitiba, trabalhei de 1937 até 1943, mas eu sempre tive problemas de saúde. Quando tive que tirar a vesícula, eu dava seis aulas por dia e o médico, Dr. Ribeiro de Camargo, me disse que, se continuasse trabalhando daquele jeito, eu ia morrer, pois estava com anemia. O ideal seria ir para um clima quente, onde trabalhasse pouco. Como abriu uma vaga em Jacarezinho, fui para lá o clima era ótimo e trabalhava só de manhã. Aqui, eu corrigia provas de seis, oito turmas por mês; lá era só uma turminha de trinta alunos.

 

José Wille – Sobrava tempo também para escrever, para fazer página literária do jornal?

 

Helena Kolody – Sim. E no interior eles prestigiam a gente. Pensei até que tivesse alguma coisa por eu ser do Sul, mas que nada! É uma gente tão amável…

 

José Wille – Por que a senhora escrevia usando pseudônimos?

 

Helena Kolody – Quando eu estive em Ponta Grossa, eles me pediram que eu fizesse a página literária, uma página feminina, e, às vezes, faltava colaboração. Então, eu fazia textos como se fossem de outra pessoa: um trabalho meu em prosa com pseudônimo, uma crônica muito diferente da minha poesia para complementar o espaço.

 

José Wille – Também houve uma passagem pelo Instituto de Educação.

 

Helena Kolody – Foram 23 anos, sendo que a maior parte deste magistério foi no Instituto.

 

José Wille – E, no trabalho como professora, também entrava o trabalho de orientação para essas jovens. Muitas tornaram-se suas amigas?

 

Helena Kolody – Muitas! Quantas vezes vinham conversar comigo, até os assuntos particulares delas. Chegavam a ir até minha casa para conversar. Essa convivência com os alunos era boa… Acabava dando muitos conselhos, porque gente jovem leva as coisas ao extremo e quase sempre não percebe suas próprias qualidades.

 

José Wille – Houve uma aluna que pensava em morrer e, lendo uma poesia sua, mudou de ideia?

 

Helena Kolody – Essa foi, bem mais tarde, lá em casa, com o poema “Prece”, com um imprimatur da Igreja, concedido a textos que devem ser lidos como orações. “Mas, como?”, eu lhe disse, “um poema só é uma oração quando acontece algum milagre”. E ela me contou o milagre: estava com depressão, a ponto de pensar em se suicidar, mas, ao pegar o meu livro “Paisagem Interior”, que eu lhe tinha dado em seu casamento, abriu na página desta poesia: “Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, de ser o coração singelo que perdoa, a solícita mão que espalha, sem medidas, estrelas pela noite escura de outras vidas, e tira d’alma alheia o espinho que magoa…”. E fechou o livro, jogou fora o veneno e desistiu de se suicidar. Veja o milagre nisso tudo, pois, se ela tivesse aberto, no mesmo livro, uma poesia que dizia “Apetece-me a paz do solo tumular, para não sofrer e não chorar. Estou cansada, tão cansada de viver…”, ela teria reforçado o seu intento. A partir daí, nunca mais escrevi poesia assim. Hoje, escrevo “Amo a vida. Fascina-me o mistério de existir. Quero viver a magia de cada instante. Embriagar-me de alegria. Que importa a nuvem no horizonte, chuva de amanhã? Hoje o sol inunda o meu dia…”. E também “A vida é linda, mesmo doendo nos desencontros e despedidas…”. Este é o lado positivo de ver a vida, porque, se há momentos difíceis, há também momentos de alegria, de felicidade, de realização.

 

José Wille – E, considerando também a lição, o exemplo daquilo que se escreve.

 

Helena Kolody – Isso! Toda a palavra tem um valor presente e um valor futuro, que são incalculáveis. O que se diz não se pode recuperar, o que se escreveu sempre fica… Então, que seja uma mensagem positiva.

 

José Wille – Com tanta preocupação em dar aula, em escrever e ter uma disciplina tão grande de trabalho, como foi sua juventude? Havia tempo para diversão?

 

Helena Kolody – Quando eu era normalista, ia para Rio Negro passar as férias na casa da minha tia e de meu tio Antônio, aquele que gostava de festa. E tinha a cunhada dele, que também gostava… Às vezes, acontecia de já estarmos dormindo e, de repente, ela chegava e dizia “vamos ao cinema”. A gente levantava ligeiro, se aprontava e ia ao cinema, aos bailes, dançava…  Aqui, em Curitiba, ia a cinemas, ia muito a teatro também, pois sempre gostei.

 

José Wille – Com essa sensibilidade toda, a senhora era uma pessoa romântica?

 

Helena Kolody – Muito romântica e gostava de ler,  sempre li demais. No começo, eram aqueles livros água-com-açúcar, mas, depois, também li ótimos livros. Por que não podia comprar livros, sempre fui uma frequentadora da Biblioteca Pública, da biblioteca dos clubes, das escolas, do Instituto de Educação… Sempre tirei livros de lá.

 

José Wille – A senhora nunca se casou. Foi uma vida solitária ou dar aulas, ter esse contato com jovens, acabou suprindo essa necessidade de companhia? A senhora sonhava em ter filhos?

 

Helena Kolody – Lógico, sonhava… Houve um tempo em que eu chorava por estar sozinha e, às vezes, tentei ver se gostava de outros, mas não… E ficou aquela coisa – o sonho é sempre mais bonito que uma realidade triste. Mas eu sempre transferi este meu instinto maternal, que é tão forte, para os meus irmãos, para os alunos… Outro dia, encontrei uma aluna que me impressionou demais, uma senhora de uns sessenta e tantos anos, que me abraçou e disse “A senhora me deu um carinho que minha mãe não deu”.

 

José Wille – Como professora em Ponta Grossa, a senhora teve uma grande paixão. Por que acabou não dando certo?

 

Helena Kolody – Porque eu nunca revelei. Ele era um homem importante, era diretor do ginásio, de família importante e já gostava de alguém. Às vezes, dançava comigo nos bailes, flertava comigo na rua, mas eu nunca demonstrei, porque eu tinha medo do ridículo. Como a Escola Normal foi transformada de primária em secundária, e as professoras de Ponta Grossa vieram tirar curso, na primeira turma que eu lecionei, elas eram mais velhas do que eu. E eu pensava “Como elas vão se divertir às minhas custas, se isto não der certo…!”. Então, tinha medo, tinha pudor, por isso nunca revelei.

 

José Wille – A senhora se reprimiu, nunca contou sobre sua paixão?

 

Helena Kolody – Ficou aquela paixão recolhida… Depois, vim embora e nunca mais soube dele. Os íntimos sabiam da minha paixão, mas os outros, não.

 

José Wille – Não se arrependeu depois?

 

Helena Kolody – Não, porque, no fundo, eu acho que ele não iria me amar, tanto que ele se casou com essa de quem gostava. Uma amiga sabia dessa paixão, a gente conversava sobre isto, mas para os outros nunca contei.

 

José Wille – E houve uma segunda paixão e até um noivado. Por que não deu certo?

 

Helena Kolody – Porque ele bebia. Era uma pessoa extraordinária, nós combinávamos muito bem, ele também era escritor, uma pessoa formidável, mas ele bebia e eu tive medo. Por que o alcoolismo é uma doença hereditária, ela se manifesta de outras formas, mas sempre é uma coisa que pode dar um filho anormal, não é? Justamente porque eu queria ter filhos, eu desmanchei. Ele disse “Teu mal é ser professora de biologia”. Na primeira vez que ele tomou aquele pileque e me telefonou falando com a língua arrastada, assim que ficamos noivos, desmanchamos sem brigar, mas ele disse “Se você casar com outro, eu morro”. E eu lhe disse que não ia casar com ninguém. E ele casou, os filhos deles sabiam que ele me queria bem… Mais tarde, tentou reatar, mas eu lhe disse “Não, você está casado, sua vida é outra, de modo que isso está para sempre acabado”.

 

José Wille – Foi uma opção de vida, afinal?

 

Helena Kolody – Foi uma opção de vida. Pelo conhecimento que eu tinha de biologia, se uma pessoa que tem tendência ao alcoolismo casa-se com uma mulher que não tem ninguém com este problema na família, pode ter filhos normais; mas, com a tendência que na minha família também tinha, eu poderia ter um filho alcoólatra ou anormal, podia ser débil mental, epiléptico, porque isso são coisas que vêm do alcoolismo.

 

José Wille – Não foi exatamente o que a senhora sonhava, mas a vida de professora acabou suprindo então…

 

Helena Kolody – Foi um período bonito, um período feliz aqueles dois meses de noivado. E tem certas coisas que a gente não sabe por quê, de onde vêm, mas ficam e marcam a gente. Quando eu morava na Carlos de Carvalho, alguém jogou para dentro do nosso jardim um ramo de rosas com um bilhete “Helena, como o perfume dessas rosas, o meu amor, puro, desinteressado e sincero”. Até hoje eu não sei quem fez isso…

 

José Wille – A senhora tem também um autocontrole bastante grande e, pelo jeito, uma visão prática das coisas, que a leva a tomar suas decisões.

 

Helena Kolody – Outra coisa que me ajudou muito é que eu tenho um profundo espírito religioso, creio na vida eterna… Vivo em função disso, vou à missa e comungo todos os domingos, respeito todas as religiões, porque eu acho que todo mundo vai a Deus. Tenho amigos de todas as religiões, protestantes, espíritas etc, mas cada um vai pelo seu caminho, não misturamos os caminhos. Eu sou profundamente religiosa e pratico a religião, e isso me ajuda.

 

José Wille – O amor à vida que está nas poesias é  autêntica? A senhora sempre teve realmente?

 

Helena Kolody – Sempre senti, sempre mesmo! Sempre tive forças para enfrentar tudo e ir adiante.

 

José Wille – No trabalho com os estudantes, algumas experiências são interessantes de se contar. Por exemplo, em Jacarezinho, montando peças de teatro e envolvendo a comunidade em atividades culturais. E trazendo temas que, naquela época, muita gente estranhava.

 

Helena Kolody – Foi outra atividade em que a cidade se envolveu, porque os alunos foram para o jornal para preparar o público, porque, se fossem ver aquilo, já iam protestar “Como que ela vai até deixar a casa?”. Porque ela não queria ser uma boneca e queria evoluir. Quer dizer, aquela coisa que hoje existe tanto, que a mulher se iguala ao homem… Ela não queria ser um objeto, queria ter a possibilidade de desenvolver suas habilidades, suas qualidades.

(Nota do revisor: possível referência à personagem Nora, da peça “Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen).

 

José Wille – E como professora, como era sua integração em pequenas cidades em que não conhecia ninguém?

 

Helena Kolody – Quando fui para Ponta Grossa, eu tinha 21 anos, e havia umas professoras que já estavam em fim de carreira, que vinham tirar a Escola Normal Secundária para conseguir uma aposentadoria melhor. O professor Erasmo, que fundou a escola, me convidou para uma festa e lá tinha um orador, também professor da escola, que se levantou, falou, falou… Então, ele disse “A mulher pontagrossense tem muito valor e muita cultura para dispensar qualquer valor e qualquer cultura de professora vinda de fora!”… Na minha cara, imagine! Tive vontade de entrar embaixo da mesa e chorar. Mas, depois, acabei tendo muitas amigas, que o são até hoje, porque a gente tem que aprender a passar por cima e continuar serenamente o trabalho que a gente idealiza.

 

José Wille – Hoje, dá para se dizer que sua família são estes estudantes com que mantém vínculo, que foram seus alunos no passado?

 

Helena Kolody – Sim. Mas, dessa primeira turma, muitos já morreram, porque eram mais velhos do que eu. Já com esses outros, que ainda estão aí e que foram de outras turmas, nunca tive problema nenhum, porque são mais moços do que eu, pois ainda fiquei quatro anos lá.

 

José Wille – A sua forma de trabalhar: a senhora diz que sonha as poesias. Muitas vezes, aparece a inspiração sem querer?

 

Helena Kolody – É isso! Eu tenho de sonhar, porque as poesias que eu faço por encomenda, por melhor que eu as faça, sente-se que são poesias sem vibração. E, quando passa a poesia na minha cabeça, a poesia sai com outra força.

 

José Wille – Muitas vezes, são reflexões e ensinamentos de vida transformados em poesia?

 

Helena Kolody – Sim! Em quase todas as minhas poesias, há um resquício de professora, essa sombra da professora, porque sempre tem uma mensagem, essa coisa que fica.

 

José Wille – Viver de literatura no Paraná, durante essa fase que a senhora enfrentou, não seria possível. Então, sempre se manteve como professora?

 

Helena Kolody – Até hoje, acho que não é possível viver de literatura. Mantive-me como professora e, depois que meu pai morreu porque fez falta o ordenado dele fiz o concurso de Inspetora Federal.

 

José Wille – Mas isso, mais tarde, foi uma garantia?
Helena Kolody – Sim! Tanto que agora eu ganho mais aposentadoria como inspetora do que como professora.

 

José Wille – Depois de uma vida inteira escrevendo, fazendo poesia, só bem mais tarde, a partir da década de 80, seu nome se tornou conhecido no país.

 

Helena Kolody – Começou em 1988, quando foi publicado pela editora Criar, de Roberto Gomes, o livro “Viagem no Espelho”, que é minha obra mais completa. Porque o que surgiu depois, por exemplo, foi um livro ucraniano, foram traduções em outras línguas das próprias poesias daqui, ou reuniões ou interpretações. Também houve “Sinfonia da Vida”, organizado pela Tereza de Rezende, mas são comentários de poesias que existem aqui.

 

José Wille – O trabalho do professor Roberto Gomes, como escritor e também como diretor da editora da Universidade Federal do Paraná, foi importante nessa projeção?

 

Helena Kolody – Ajudou! E foi ele que, pela editora da universidade, publicou o livro, que consta da relação que os alunos consultam. É por isso que tem saída e me procuram.

 

José Wille – Dá para dizer que aí começou a consagração como poeta, como escritora?

 

Helena Kolody – A partir da “Viagem no Espelho”, porque, antes disso, o meu era um nome local. Alguns me conheciam mais longe, porque eu mandava minhas poesias para o estrangeiro, mas era pouca gente. A partir daí, foi um conhecimento maior. Foi um total de vinte  publicações.

 

José Wille – Ao deixar o trabalho como professora, a senhora em casa passou a escrever mais?

 

Helena Kolody – Não sei, porque, mas agora eu tenho medo de começar a escrever “batatinha quando nasce”, porque a gente vai perdendo o senso de crítica e, de repente, começa a escrever bobagem. Então, prefiro ficar nisso já faz muitos anos do que começar a escrever coisas de valor inferior. O último escrito foi “Reika”, que ainda é dos minipoemas.

 

José Wille – Muitas escolas, muitos centros de literatura levam seu nome.

 

Helena Kolody – Estive em Terra Boa há pouco tempo, e me receberam muito bem. Lá, o colégio estadual tem o meu nome. Tem também uma escola em Cambé e muitas bibliotecas por aí.

 

José Wille – Para quem tinha esse espírito sonhador, esse romantismo, essa vivacidade e toda essa inteligência, na convivência com a velhice, que lição fica, como a senhora a enfrenta?

 

Helena Kolody – É muito difícil… A pior coisa, fora os problemas de saúde, é a memória, que vai morrendo… Você quer lembrar de uma coisa e não consegue! Quando era jovem, lembrava tudo; agora não posso me lembrar de um lugar, do nome de um livro, de uma poesia. São as células cerebrais morrendo. Quando você lê e relê, passa aquele arquivo para outras células; se você não lê, elas se apagam e você não as tem mais…

 

José Wille – E há uma limitação de trabalho?

 

Helena Kolody – …de trabalho, a falta de memória que a velhice traz.

 

José Wille – A perda da referências das pessoas que a gente conhece, dos familiares.

 

Helena Kolody – Às vezes, não sei quem é. Encontro as pessoas, porque a gente se dá com tanta gente, mas eu tenho tomado cuidado, porque eu caso um com a mulher do outro, sabe como é…

 

José Wille – Mas as pessoas da família vão morrendo e parece que o mundo vai se modificando.

 

Helena Kolody – A gente morre um pouco com eles. Minha irmã e meu irmão morreram. Ainda tenho uma irmã em casa, que tem deficiência visual, mas tem uma memória… E ela lê, assim mesmo, com telelupa, essas revistas modernas e tudo.

 

José Wille – A senhora tem uma citação poética interessante sobre a volta ao local onde se viveu no passado e que não é mais a mesma coisa.

 

Helena Kolody – “Ilusório regressar pelos caminhos de agora aos dias que se apagaram. O rosto de ontem mudou. Lugar que foi, não é mais. O viver é diferente. Somente em nós, tudo existe e não se extingue jamais. Tempo guardado em lembranças, a saudade nos devolve todo o presente de outrora.”. E só quando você recorda parece que vê aquele lugar, o que aconteceu naquele tempo. Mas, se você for lá agora, nem o  reconhece.

 

José Wille – De conversas, de coisas que acontecem com as pessoas disso tudo surge inspiração para escrever, para fazer poesia?

 

Helena Kolody – Às vezes surgem, como agora há pouco tempo, quando encontrei uma ex-aluna na rua e ela me disse que estava com setenta e tantos anos, já aposentada da vida, mas tratando dos papéis para ir a Cancún. E eu lhe disse, de repente, “Se você acha a vida linda, gosta de agir, fazer planos, sorrir de seus desenganos e sabe sonhar ainda, é moça apesar dos anos”. Então ela disse “A senhora escreve para mim?”. E eu escrevi para ela.

 

José Wille – Desse trabalho todo, a senhora considera que houve uma realização talvez maior do que esperava quando jovem?

 

Helena Kolody – Nunca a gente chega lá. Eu tenho até uma poesia que diz “Não. Não era isso. O que eu queria dizer era tão alto e tão longe que nem consegui soletrar suas palavras-estrelas…”. Depois, fiz outra poesia: “Pintou estrelas no muro, e teve o céu ao alcance das mãos…”. Então, a gente tem que fazer o que pode, se não pode chegar aonde se quer.

 

José Wille – De tantos livros, quais a senhora considera mais importantes, quais são os trabalhos que marcaram nesse tempo todo?
Helena Kolody – A gente, no fundo, não considera nenhum, porque a gente sonha e o que sonha é muito maior do que aquilo que realiza. Os outros é que julgam “este está bom”. E eu, no fundo, acho que não cheguei lá, não consegui. Mas se os outros gostam das estrelas que eu pintei no muro, então eu faço as pazes com o livro.

 

José Wille – A senhora conta que teve problemas de saúde. Quando imaginava que ia morrer voltava a escrever?
Helena Kolody – Fiz, por exemplo, “A Correnteza”, em que selecionei todos os poemas publicados até a data.

 

José Wille – A senhora enfrentou momentos difíceis com a saúde. Já foram onze cirurgias… Como foram esses momentos?

 

Helena Kolody – A gente sempre pensa que está se despedindo da vida, e assim fui fazendo. Agora, estou com um calo nas costas, mas não quero operar.

 

José Wille – O sofrimento e a solidão também ajudam na criação da poesia?

 

Helena Kolody – Eu acho que sim, porque o fato de você contar faz com que você esqueça a dor que está sentindo. Há uma alegria em criar, mesmo que você não chegue aonde você quer, mesmo que você esteja voando torto. Você esquece seus problemas quando cria. Quando eu estou em estado de poesia, eu estou feliz, mesmo que eu não chegue lá.

 

José Wille – No Paraná, a senhora é vista como uma das figuras mais importantes naquilo que faz. E o Paraná, o que representa para a senhora?

 

Helena Kolody – Tudo! Tanto que, às vezes, querem me levar para outros lugares… Tenho sobrinhos que moram no Mato Grosso, em Goiás, em São Paulo, mas eu não quero sair daqui, porque amo o Paraná. Quero morrer aqui mesmo, apesar do clima que maltrata, pois nós temos num mesmo dia calor, frio e chuva, mas eu quero ficar aqui. Eu amo o Paraná!

 

José Wille – Depois de ter passado pelo campo e cidades do interior, a senhora vive hoje num apartamento, na região central de Curitiba. Como é a convivência?

 

Helena Kolody – É dura, porque onde eu moro é barulho noite e dia. A gente está enlatada! Até o sol quando nascia, eu via… Agora, construíram uns prédios altos, e eu só o vejo quando já são 11 horas da manhã. A gente fica mais ou menos emparedada. Isso é triste, mas pego um ônibus, saio um pouco, vou para fora e vejo a Curitiba que era.

 

José Wille – Sua irmã que mora com a senhora é a sua companheira do cotidiano.

 

Helena Kolody – Sempre! E ela, mesmo não enxergando, sai sozinha e passeia e anda. E há certas coisas que a gente vê por exemplo, a praça Rui Barbosa, que fica em frente ao prédio onde moro, está tão bonita agora. Umas coisas a gente está perdendo; outras ganhando.

 

José Wille – Daquilo que escreveu, o que a senhora considera mais importante como mensagem em poesia, resumindo aquilo que foi sua vida, sua trajetória?

 

Helena Kolody – Talvez o poema “Dom”, de que o pessoal gosta muito. É assim: “Deus dá a todos uma estrela. Uns fazem da estrela um sol. Outros nem conseguem vê-la…”. E há tantos que, às vezes, não veem a sua estrela. E, de repente, descobrem que não a viam porque estavam olhando para a que não era sua.

 

José Wille – Como se explica essa sua memória, essa capacidade de lembrar poesias inteiras escritas há tanto tempo?

 

Helena Kolody – Não sei, é um mistério que não sei explicar. Acho que o próprio cérebro é uma coisa que você está sempre amassando, sempre usando… Se deixar de usar, morre. Assim, você está sempre pondo as células em atividade, porque, se adormecer, pode não acordar mais.

 

José Wille – E, ao mesmo tempo em que a senhora tem toda essa sensibilidade, tem autocontrole para falar desses assuntos, relembrando coisas importantes e coisas tristes com tranquilidade.

 

Helena Kolody – É que a gente tem de superar! Todo mundo tem seus sofrimentos, mas a gente sempre precisa saber superá-los.

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Memória: O professor Ivo Mezzadri mudou a história da UTFPR em Curitiba

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A carreira do professor Ivo Mezzadri confunde-se com a própria história do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná – CEFET, do qual foi diretor geral, transformado mais tarde na UTFPR.  Esteve na instituição de 1950, como aluno, até encerrar a sua gestão em 1984 como diretor. Nesta gestão, o centro expandiu a infraestrutura e criou cursos de excelência técnica, apoiando ainda muitas atividades artísticas, na busca de uma educação integral.  Ivo Mezzadri atuou também na Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP) e no Instituto Euvaldo Lodi (IEL), promovendo programas de estágio em busca de integração entre escola e empresa. Entrevista gravada em outubro de 1997.  

 

 

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José Wille – Professor, pode-se dizer que o senhor dedicou sua vida ao CEFET, onde entrou muito jovem, em 1950, vindo de Porto Amazonas.

Ivo Mezzadri – Exatamente. Como você disse, dediquei minha vida e quase que o CEFET levou minha vida também. São dois extremos nesse particular. Tive a oportunidade de entrar como aluno, em 1950, fazendo ginásio industrial, que, naquela época, chamava-se primeiro ciclo. Posteriormente, fiz o segundo ciclo, que é o segundo grau de hoje, e, depois, o curso de formação de professores.

José Wille – Quando o senhor ingressou na escola técnica, em 1950, como era? Um internato?

Ivo Mezzadri – Tinha o internato ainda, e era de altíssimo nível, inclusive copiado por colégios de freiras da época. No primeiro e no segundo ano, eu morava com a minha madrinha, mas, no terceiro e quarto ano, fui aluno interno.

José Wille – Como era o ensino naquela época? Era exclusivamente técnico ou havia uma boa base nas demais disciplinas?

Ivo Mezzadri – Quando eu comecei, já era ginásio industrial e, como o próprio nome diz, já correspondia ao ginásio, ao primeiro ciclo. Então, era formação educacional geral e específica. Havia aula o dia inteiro pela parte da manhã, estudávamos as cadeiras da educação geral, como português, história, matemática, ciências etc; almoçávamos na própria instituição e, na parte da tarde, tínhamos as aulas práticas ou tecnológicas. Ou vice-versa.

José Wille – Terminado o curso, o senhor já ficou no  CEFET como professor?

Ivo Mezzadri – Sim. Quando terminei, em 1957, já me deram o recado que eu era um bom aluno como outros também  e ficamos participando de um grupo de assistentes dos professores, para que, dentre nós, fossem escolhidos os que ficariam com certas vagas já previstas.

José Wille – Foi um tempo como professor do CEFET e também da rede estadual. E depois surgiu o convite para o senhor participar da direção.

Ivo Mezzadri – A partir de 1959, fizemos o curso de formação de professores, que, naquela época, era pela CBAEI – Comissão Brasileira Americana de Ensino Industrial. O curso tinha duração de 2 anos, se não me engano, e, logo depois, comecei com atividades também no estado, mais ou menos em 1960. Foi uma época boa para a gente, porque, realmente, quem tinha domínio do ensino técnico ou da parte técnica era bem conduzido, bem valorizado.

 

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Criar atividades extra-classe para os alunos foi um grande diferencial da gestão de Ivo Mezzadri, como o Clube de Xadrez, a Banda da ETFPR, o Coral,  o Tetef, Teatro da ETFPr, e grupos de atletismo em todas as áreas, dentro de uma longa lista de inovações. Encontre muitas outras fotos históricas no grupo Memória da Escola Técnica do Paraná, e no grupo Memória da UTFPR, criados por esta coluna no Facebook.

 

José Wille – Em 1972, o senhor assumiu a direção geral do CEFET. Além da preocupação com o CEFET e sua expansão, também havia atenção com as atividades extraclasse, para que a escola não fosse exclusivamente técnica?

Ivo Mezzadri – Isso é um fator muito importante, que muitos educadores parecem não ver como fundamental. Este foi um período em que o CEFET precisava se autoafirmar na comunidade. Ora, uma instituição de ensino que tinha essa vocação e que precisava se autoafirmar tinha que lançar mão de todas as possibilidades que tivesse. Naquela época, em 1972, tínhamos um pequeno nicho de canto um coral muito modesto, muito simples e tivemos o privilégio de criar muitas outras coisas. Dentre elas, posso citar o conjunto de flauta transversa, que começou naquela época; o Tetef – um conjunto de teatro, porque entendíamos que o teatro era uma forma de desenvolver essa atividade; o grupo de ginástica rítmica, que acho que foi uma oportunidade de muitas moças se realizarem; a escola de xadrez, que também foi uma atividade muito interessante; e para todas as atividades esportivas, como vôlei, basquete, handebol, natação, atletismo – masculinos e femininos – tínhamos também escolinhas. Vimos que, quando começavam a escola, às vezes nem sendo alunos, eles já começavam estas atividades.

José Wille – E o CEFET educava não só para a área técnica, mas para outras áreas, para outras profissões, a partir dessas atividades?

Ivo Mezzadri – Exatamente, pois o importante é entender que o processo educacional é muito complexo. Muitos alunos, aos 12 anos, já têm uma direção definida, ou pelo contexto familiar ou pelo patrimônio da família. Outros, não; estão perdidos. Então, quanto mais atividades a escola tiver, mais fácil para o aluno se encontrar através daquelas atividades. Você é exemplo disso. Quer dizer, é necessário que o jovem não seja técnico de mecânica ou de eletrônica ou de telecomunicação, mas que se encontre profissionalmente. Na banda marcial, quantos alunos tiveram a oportunidade de aprender música; na estação astronômica, de ver os astros. Então, tudo isso a escola proporcionava, para o aluno se encontrar vocacionalmente.

José Wille – Houve uma grande afirmação do Centro Federal de Educação Tecnológica, na época chamado de Escola Técnica Federal do Paraná, na década de 1970. Quando o senhor acha que se consolidou como um centro de referência para onde os pais queriam mandar os filhos para formá-los, mesmo se, depois, o destino fosse a universidade?

Ivo Mezzadri – Na década de 1970, a escola precisava de uma autoafirmação e isso foi fundamental naquela oportunidade. Em Minas Gerais, temos a tradicional família mineira. E, no Paraná, temos a tradicional família paranaense, que carece de mudanças. Na época, tínhamos alguns colégios, entre eles o Colégio Estadual do Paraná, o Santa Maria, o Colégio Militar – que estava começando – e que atingiam a classe A da sociedade. Não havia outros. Hoje, vê-se que o CEFET é completamente diferente. Naquela época, não havia muitas outras opções sociais, tanto para o sexo masculino quanto para o feminino. Então, o CEFET teve que entrar como uma cunha no social para mostrar que o jovem devia ter uma profissão também, além de uma cultura geral muito boa.

 

José Wille – A escola se consolidou com o objetivo principal de formação técnica, não de um estudante que, depois, fosse cursar uma universidade. Mas o aluno fazia o curso técnico e, em grande parte, ia para a universidade a seguir.

Ivo Mezzadri – Isto é um fator em nível nacional, não só aqui em Curitiba ou no Paraná. Então, a escola precisava ter como tinha mecanismos, pois, dentre 500 formandos no ano, entre o primeiro e o segundo semestre, imaginávamos que um percentual de 30 ou 40% fosse buscar um terceiro grau, mas 60 ou 70% deles ficariam por alguns anos nas atividades industriais. Socialmente, acho que o CEFET dava resposta à comunidade, justificando plenamente, em termos de ensino, todo o investimento que o governo federal fazia. Você sabe perfeitamente que, no Paraná, na área de educação, temos dois grandes orçamentos: a Universidade Federal do Paraná e o CEFET. Quer dizer, um estado que tem uma contribuição significativa, uma das mais altas para a União, tem muito pouco retorno na área de educação. Então, com um endereçamento dessa natureza, quantos alunos podem se beneficiar! Eu tive uma atividade social, na semana passada, quando um aluno disse-me claramente “Eu estou aqui e sei o que sou, com minha mulher e meus dois filhos, graças à Escola Técnica”. Como ele, há milhares de outros alunos. E, talvez, ele seja técnico até hoje.

José Wille – O modelo que se tentou estabelecer, na década de 1970, priorizando o ensino técnico como uma  opção, para que não houvesse só a meta de se fazer o curso superior, acabou não dando resultado?

Ivo Mezzadri – Não é que não deu resultado. Houve resultados, mas eu suponho que, à medida que toda a comunidade queria fazer CEFET, foram se desvirtuando. As demandas industriais continuaram existindo, foram crescendo cada vez mais e a clientela que entrava na escola nem sempre era endereçada para aquilo.

José Wille – E isso foi bem no momento em que surgia a Cidade Industrial de Curitiba, em 1972, quando a exigência da formação de técnicos era bastante grande.

Ivo Mezzadri – Claro! Nós mesmos, lá no CEFET, tínhamos os serviços, inclusive o de produção, que começamos naquela oportunidade. Algumas empresas, entre elas a Volvo ou a Guaíra, encostavam na rua Westphalen uma jamanta com blocos de fundidos, que vinham da cidade de Taubaté, em São Paulo. Testavam estes blocos ali, nos nossos laboratórios. E, se estivessem dentro dos padrões, iam para a fábrica; senão, voltavam dali mesmo. Então, esses fatores realmente conduziam a uma formação tecnológica de bom nível. E era solicitado que assim fosse.

José Wille – Nessa fase em que o senhor esteve na direção do CEFET, que vai de 1972 até 1984, foi o momento da grande expansão do Centro Federal de Educação Tecnológica. Criaram-se os cursos de Engenharia Operacional e toda a infraestrutura. Como foi possível construir aquela potência em que se transformou o CEFET?

Ivo Mezzadri – Houve vários fatores. Um deles foi a expansão de Curitiba. Outro fator muito importante foi que o nosso ministro da Educação era o Ney Braga e ele e sua equipe eram muito voltados ao ensino técnico. Começou-se com engenharia de operações e tecnólogo, depois transformou-se em engenharia industrial. O sistema CONFEA-CREA não via o nome “engenharia de operações” simpaticamente, o que gerou, na época, movimentos dos mais diversos dentro das universidades, dentro da PUC. Foi uma pressão muito grande, mas o Conselho Federal de Educação houve por bem transformar a engenharia de operação em engenharia industrial. E, na nossa modesta opinião, devíamos continuar buscando a verticalização do ensino na área de tecnólogo ou técnico de nível superior.

José Wille – Sua tarefa na direção do CEFET foi principalmente a criação da infraestrutura, o suporte para aquela demanda de alunos, a expansão e criação dos cursos superiores?

Ivo Mezzadri – Sim, mas, como sempre digo, a situação como último diretor da escola é como a corrida do facho cada um entrega para o outro da melhor forma possível. Eu peguei a direção do professor Ricardo Luiz Knesebeck. Entreguei-a para o professor Ataíde Ferraza. Ele a entregou ao professor Arthur Bertol. Atualmente, temos o professor Paulo Aléssio. Então, cada um, honestamente, procura fazer o melhor que pode. No entanto, é preciso ir se modernizando, se adequando, não só à legislação, mas ao contexto social.

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Na fila da frente os professores Ataíde Moacyr Ferrazza  , Ivo Mezzadri e Carlos Miranda, da equipe de direção nos anos 1970.

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José Wille – Depois desse tempo todo, de ter sido aluno e diretor geral, dedicando-se por tanto tempo ao CEFET, que ensinamento tira sobre o papel do ensino técnico?

Ivo Mezzadri – Em termos de país e de mundo, não existe um modelo. Tanto que o sistema francês ou o alemão é melhor que o sistema brasileiro. Não existe um modelo a ser adequado. Mas o período de formação do técnico e as tecnologias existentes têm um tempo de duração cada vez menor. O conhecimento humano praticamente dobra em menor espaço de tempo. Então, o conhecimento que se adquiria em um século ou dois ou três dobrou-se. Com o desenvolvimento de toda informática, praticamente dobrou-se o conhecimento. Então, no meu entender, o CEFET, no atual contexto, tem que ser como um edifício, que têm várias janelas de saída, devendo receber os adolescentes e os jovens, que devem sair pelas janelas em pouco tempo no máximo em um ano e meio ou dois. Devemos ser ágeis nisto, pois o contexto social é muito grande e muito exigente e precisamos deixar que isto seja adequado às empresas.

José Wille – A tradição do Centro de Educação Tecnológica, mesmo sendo uma instituição pública, era de funcionar de uma forma muito precisa, disciplinada e com dedicação dos professores, diferente de outras instituições públicas. Como foi criada e se manteve essa disciplina?

Ivo Mezzadri – Isso é tudo em função de um sistema, que, evidentemente, tem suas épocas mais e suas épocas menos, quando se implanta ou se dá continuidade a um sistema. Por exemplo, naquela época, tínhamos o sistema do ensino objetivo dentro da teoria de Maker, em que a matrícula era feita por disciplina. Tudo isto conduz os funcionários, o corpo docente e o corpo discente a ter uma certa conduta, porque o sistema exige, o respeito e as condições exigem. Então, tudo isto está no bojo de um sistema. É necessário encarar o fato que a escola é o reflexo do seu modus fazendi.

José Wille – A disciplina, inclusive na questão de limpeza e organização muito diferente de outras instituições marcava o CEFET. A tradição se manteve?

Ivo Mezzadri – Esses fatores são muito curiosos. Obviamente, posso dizer muitas coisas a respeito disso, mas entendo que a direção – não só o diretor, mas todo o seu staff diretivo – coloca como prioridade “dar de si antes de pensar em si”, que é um princípio Rotary. Hoje, trago isso, mas não fomos nós que começamos já vinha do diretor anterior e estava dentro daquele contexto da corrida do facho. Então, o aluno se porta conforme o ambiente que vê: se vai em um sanitário adequado, comporta-se adequadamente; se vai ao pátio e vê lixeiras, coloca o lixo nelas. Tudo isso induz a um comportamento. As zeladoras, se veem que tem o sistema de reaproveitamento de papel usado, comportam-se desde que exista um lugar para que se coloque o papel para reaproveitamento.

José Wille – O CEFET teve também uma atitude pioneira ao incluir em seu ensino a matrícula por disciplina. Antigamente, quem reprovava em uma tinha que refazer todas as disciplinas. O início disso foi bastante complicado, em se tratando do entendimento deste sistema por estudantes de pouca idade?

Ivo Mezzadri – Deu algum trabalho, mas foi dignificante! Este sistema tem muitas vantagens, tanto que até hoje temos a matrícula por disciplinas. Claro que dá trabalho! Naquela época, começamos, como sempre digo, com o “João Faber” – escrevendo a lápis – para, depois, entrar no sistema de computação. O ensino por objetivo também conduz ao comportamento da matrícula por disciplina. Não era necessário aquele sistema que tínhamos de matrícula anual, em que se reprovava em duas, três ou mais disciplinas e, conforme o estabelecimento, perdia-se o ano todo ou o semestre. Tínhamos até um determinado número de disciplinas e o aluno podia fazer só aquelas novamente. Havia também a situação do horário. Então, o mau aluno tinha que encaixar o seu horário de manhã, de tarde ou de noite, conforme a situação. Os alunos normais encaixam o seu horário no período que for. Isso facilita muito a vida dos alunos.

José Wille –  Foi no seu período também que surgiram os cursos de engenharia operacional, que, depois, tornaram-se engenharia industrial. Como foi a implantação deste curso e a construção dos prédios?

Ivo Mezzadri – Em 1974, começamos com os cursos de engenharia de operações, quando foi aprovado o projeto, que já vinha de época anterior. Então, demos continuidade àquele processo com muita ênfase. Isto não nasceu só porque alguém achava que deveria existir. Houve uma comissão da Fundação Ford, na década de 1960, que fez um levantamento no país para determinar localidades que fossem polos industriais, entre elas Curitiba, Minas, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Bahia. Esta comissão recomendava que este tipo de curso devia ser montado nas escolas técnicas e não nas universidades. Das seis unidades-polo, de seis escolas técnicas, tivemos três que realmente lograram êxito – Paraná, Minas e Rio de Janeiro – porque tiveram seus projetos aprovados e executados em determinada época. Isto aconteceu em 1974, após muitas diligências e reuniões. E formamos os primeiros engenheiros de operação em 1978, junto com tecnólogos. É claro que aquelas escolas técnicas absorveram os cursos de engenharia, tornando-se escolas de segundo grau que também tinham terceiro grau. Obviamente, em termos de MEC, de departamento de ensino médio, departamento de ensino de terceiro grau, era anormal. Depois de muitas idas e vindas, reuniões e definições, determinou-se que estas três escolas mudassem para Centros Federais de Educação Tecnológica, o que aconteceu em agosto de 1978. O prédio onde está a engenharia, na Sete de Setembro com a Marechal, foi um projeto no qual participamos ativamente e o construímos nesta época. Depois, outro projeto, na esquina da Marechal com a Silva Jardim, que era só de segundo grau, foi feito por nós mesmos da escola, pois os próprios professores fizeram os projetos arquitetônicos. Este prédio foi construído pela Irmãos Thá; o outro, pela Encipar. O prédio da Silva Jardim tinha quase o dobro de área construída do prédio anterior, o da Sete de Setembro. E este foi feito com o dobro do custo do outro, porque eram projetos com pé-direito muito alto e volume de concreto enorme, o que encareceu muito a construção.

José Wille – Apesar do ensino técnico, dos laboratórios, de um ensino pesado e difícil, CEFET se caracterizava por não ter um ambiente árido. Havia incentivo às atividades culturais. Isto era uma filosofia de trabalho que o senhor introduziu no CEFET?

Ivo Mezzadri – Na verdade, acho que nós começamos nisto, porque o ensino técnico é muito fechado, trancado, muito tecnológico. Então, à medida que se tem várias atividades, o rendimento melhora. Como exemplo, o Salão de Arte, que temos até hoje, nada mais é do que a exposição de algo que o aluno fez por exemplo, um aluno que faz mecânica e também faz uma outra atividade, como pintura ou escultura. Tudo isto está dentro de uma filosofia de que não é necessário ter apenas o ensino técnico. Muito pelo contrário: é em cima deste aluno com bom ensino técnico, com boa educação geral, que se desenvolvem boas atividades extraclasse. Cada vez mais, o conhecimento se afunila e a pessoa que tiver uma boa educação geral, obviamente, se adaptará melhor a qualquer situação.

José Wille – No final de 1982, chegando em casa, o senhor encontrou quatro fugitivos da penitenciária e acabou atingido por dois tiros. Como isso mudou a sua carreira e a sua vida?

Ivo Mezzadri – Mudou, fazendo um giro de 180 graus! Eu tinha possibilidades diversas e me vi impedido. Não fui a óbito praticamente por uma razão de Deus.

José Wille – No seu caso, foi por um milagre. Levou dois tiros e um, inclusive, alojou-se no cérebro!

Ivo Mezzadri – E está aqui até hoje. Então, é uma situação ímpar, com as sequelas e a vivência que tive.

José Wille – O senhor estava chegando em casa. Poderia ter sido pior? A sua família estava correndo risco.

Ivo Mezzadri – Sim. Supomos que iam entrar na minha casa e danificar a minha família, mas não esperavam que eu chegasse naquele exato momento.

José Wille – O mais importante foi a sua reação posterior, pois o senhor enfrentou uma situação difícil. No primeiro momento, ficou completamente paralisado, sem falar, sem poder se mover. Então, teve um esforço muito grande, com a fisioterapia, para vencer esta situação.

Ivo Mezzadri – Passamos por isto. Fiquei um bom período, uns treze dias, na UTI, completamente inconsciente. Durante todo o período de hospitalização, eu só andava de cadeira de rodas, não falava, era um morto-vivo.

José Wille – Os médicos consideravam que a sua esperança de reação seria pequena. No entanto, sua recuperação foi surpreendente.

Ivo Mezzadri – Deus foi muito bondoso comigo acho até que bondoso demais! E todo o esforço que nós tivemos, oxalá que tantos outros tenham também! É um privilégio ganhar esses 14 anos de vida trabalhando, dirigindo, lendo, mesmo com todas as sequelas que ficaram.

José Wille – Quanto tempo o senhor levou para poder voltar ao trabalho?

Ivo Mezzadri – Mais ou menos quatro anos.

José Wille – Mesmo depois desse fato, o senhor voltou para a direção do CEFET por mais um tempo?

Ivo Mezzadri – Exatamente. Voltei para a direção do CEFET pelas mais diversas razões possíveis. Fiquei, mais ou menos, 5 ou 6 meses, cumprindo o tempo de aposentadoria, que vencia no dia 10 de janeiro de 1984. No dia 17 de janeiro, entreguei o cargo para o meu vice-diretor, que era o professor Athaíde Moacir  Ferraza. Depois de lá, já existia um namoro com a Federação das Indústrias e o Senai, onde estou até hoje.

José Wille – Como exemplo para quem enfrenta situações semelhantes: o que lhe dava forças? Como o senhor conseguiu reagir, tendo esse esforço todo para recuperar os movimentos e a fala?

Ivo Mezzadri – É difícil dizer, mas um dos grandes fatores foi a própria família. E a minha condição orgânica me permitiu isso. E, digamos assim, Deus foi muito bondoso comigo. Provavelmente, tinha uma saúde boa. E tudo isso facilitou. Na opinião do médico que me acompanhava, o fato de não fumar foi um dos fatores fundamentais, porque a medicação tinha um tipo de reação em mim que não teria em uma pessoa que tivesse esse vício. Um dos fatores foi esse.

José Wille – Quando o cérebro é atingido, a pessoa tem que, praticamente, reaprender a fazer as coisas mais simples.

Ivo Mezzadri – Sim. O médico, ainda no hospital, me disse “Você vai aprender tudo de novo”. E, de fato, aprende-se tudo novamente, de forma diferente. Muito mais rápido, mas se aprende tudo de novo.

José Wille – Inclusive a própria fala.

Ivo Mezzadri – Inclusive a própria fala, porque, no começo, eu não ficava em pé e não falava. Reaprendi com muita fonoaudiologia, com muitas atividades paramédicas, que foram sendo dispensadas com o tempo. E até hoje faço natação.

José Wille – Sobre a responsabilidade do estado na questão da violência: se uma pessoa foge de uma penitenciária, isto é responsabilidade de um órgão, que não está cumprindo os seus deveres.

Ivo Mezzadri – Quanto a este fator, a minha família, na época, não fez absolutamente nada. Obviamente, só queriam a volta do pai ou do marido. E foi um parente meu que nos motivou a entrar com uma ação contra o estado. Isto é, o tostão contra o milhão.

José Wille – Uma ação para responsabilizar o estado, que deveria ter a responsabilidade sobre estes presos?

Ivo Mezzadri – O dr. Júlio Militão é o advogado do nosso caso. Inicialmente, entramos na Justiça em uma das varas e perdemos. Judicialmente, fomos ao Tribunal e ganhamos. Recorreu o estado e ganhamos novamente. Agora, está no Supremo Tribunal Federal e cabe ao estado recorrer novamente. Então, na verdade eu já ganhei moralmente, mas judicial ou profissionalmente, na atividade advocatícia, dá-se continuidade. Mas entenda-se que eu já estou satisfeito. Há fatores assim. O meu filho mais velho, na época, ficou duas semanas sem falar. Então, quem vai pagar por isso? Com a ação de psicólogos e médicos, ele voltou ao normal. E o que ficou na cabeça dos meus filhos pequenos, que tinham na época 10 anos e 12 anos? Que sequelas nós tivemos na vida, na família?

José Wille – É um caminho justo buscar essa responsabilidade, o que mostra, inclusive, a demora da Justiça brasileira para resolver casos assim.

Ivo Mezzadri – Exatamente. Eu tive o privilégio de ser uma pessoa aquinhoada neste caso, mas quantos outros não tiveram esta condição?

José Wille – Já se vão mais de 10 anos sem, ainda, um desfecho final para a ação?

Ivo Mezzadri – Claro, 14 anos! Você tem, normalmente, 5 anos para entrar na Justiça e o fiz dentro deste período. Já se passaram 14 e eu não vi resultado prático nenhum ainda.

José Wille – Mas o senhor considera que seja um ato de cidadania a cobrança da responsabilidade governamental?

Ivo Mezzadri – Claro! A cidadania deve ser exercida.

José Wille – Superado este trauma, o senhor pôde voltar a trabalhar e teve a possibilidade de encaminhar 4 filhos pequenos para o ensino, para a educação superior e teve ainda a sorte de poder acompanhar seu crescimento.

Ivo Mezzadri – Exatamente. O meu filho mais velho é arquiteto e professor na Federal e na Católica. Naquela época, estava iniciando a faculdade, no primeiro ano. A minha filha Suzana é designer pela Federal e tem escritório próprio. Naquela época, estava fazendo o segundo grau. O Danilo era do Quarteto Brasilis, já fez mestrado nos Estados Unidos, em Michigan, e agora está fazendo doutorado. Meu quarto filho, hoje com 24 anos, está fazendo o terceiro grau de Engenharia Mecânica. Então, todos eles estão bem encaminhados neste particular. Minha esposa, com aulas junto à Faculdade de Educação Musical e suas atividades de musicoterapia, é o patrimônio maior que tenho.

José Wille – E o senhor pôde retornar à sua atividade principal, que era a educação. E, mais tarde, dedicou-se também ao Instituto Euvaldo Lodi, trabalhando com jovens estagiários.

Ivo Mezzadri – Exatamente! Como digo, entrei em um barco no qual eu sabia remar. Os estágios são parte das atividades do Instituto Euvaldo Lodi, pelos quais é mais conhecido, mas desenvolvemos uma gama muito grande de outras atividades e projetos. Dentre eles, as incubadoras, todo o programa de bolsa de trabalho, bolsa de estudo, todo o programa de pós-graduação lato sensu, com várias universidades, além da Comissão de Integração Universidade-Empresa. O sistema da Federação das Indústrias tem um pé significativo no Instituto Euvaldo Lodi para “n” ações que este procura desenvolver, catalisando as empresas para o sistema.

José Wille – O senhor deve ficar satisfeito cada vez que passa em frente ao CEFET, observando o que é hoje o Centro, com todos aqueles prédios, sabendo da colaboração que pôde dar.

Ivo Mezzadri – Não deixa de ser uma satisfação para mim e para toda a equipe que trabalhou naquela época, que continuou trabalhando posteriormente e trabalha até hoje. E Deus queira que o CEFET continue nesta caminhada, com o Paulo entregando o bastão para outro e fazendo essa corrida do facho. É uma instituição que dá muito orgulho aos paranaenses, de maneira geral.

 

 

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Conheça a página de homenagem ao professor Ivo Mezzadri, que mudou a história da UTFPR, a antiga Escola Técnica Federal do Paraná. Clique aqui para abrir a página.

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Como era a programação do rádio FM de Curitiba há 35 anos

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Ouça na gravação abaixo vários trechos da programação das rádios fm de Curitiba em 1981

.no anos de 1982.

 

E ouça também como era o programa “Rodada dos Campeões” da Rádio Caiobá em 1981, com Paulo Roberto.

(Em áudio adicionado por Bira Santa Clara.)

 

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