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O fim do Ciclo do Café no Paraná

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O professor Belmiro Valverde , autor do livro “O Brasil não é para amadores”, resumiu em 1998 como foi o fim do Ciclo do Café no Paraná..

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Belmiro Valverde.

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Na segunda metade da década de 60, durante o governo Paulo Pimentel, o senhor estava no Departamento de Trabalho, o que seria o equivalente a Secretaria de Indústria e Comércio, e lá trabalhava com a geração de empregos. Foi o momento em que começou a erradicação do café e a saída de paranaenses para outros estados.

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Belmiro Valverde – A crise do café já estava se delineando há muitos anos, porque, no Brasil, a política de café, desde o acordo de Taubaté, no começo do século, sempre foi no sentido de administrar o comércio cafeeiro. Então, o governo fazia o chamado plano de safra, ou seja, comprava todo o café produzido e depois fazia a venda no mercado externo e também no interno. O café que era entregue às torrefações era fornecido pelo IBC.

Então, o que acontecia é que o café, em termos de produto, tinha um preço político. Quando um preço internacional subia muito por causa de algum evento, de geada ou outra coisa, o governo se apropriava disso através do chamado “confisco cambial”. O governo ficava com a eufemisticamente chamada “cota de contribuição da cafeicultura”. Se a saca de café valia 200 dólares, o governo só pagava 120 à cafeicultura e ficava com 80. Em compensação, quando o café declinava de preço, a cafeicultura era apoiada pelo governo.

Em 1964, o Brasil já vivia um problema grande de estoques crescentes, pois tinha uma produção que crescia, crescia, e o mercado era mais ou menos inelástico. Quando houve o grande esforço anti-inflacionário, o Brasil tinha mais de 60 milhões de sacas estocadas para um comércio anual de 20, 20 e poucas.

Então, o governo militar resolveu levar a sério a questão da erradicação e criou uma série de estímulos para trocar café por agricultura temporária. Isso foi um grande baque para a cafeicultura paranaense, de 1965 até 1970. A cafeicultura perdeu muita vitalidade e, com a geada de 1975, entrou em declínio.

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Crescia a pecuária no interior do Paraná e isso levava ao desemprego do homem do campo, que só tinha então a cafeicultura como atividade?
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Belmiro Valverde – Exato. O café era uma cultura muito empregadora de mão-de-obra e foi substituído em um pedaço do estado pela pastagem, na região do Noroeste. Por exemplo, em Paranavaí, Rondon e Cidade Gaúcha, você via grandes extensões de terra que eram antes propriedade de cafeicultura e que haviam se deteriorado, inclusive por causa do solo.

Elas não tinham condições de competitividade e viraram pasto. Por outro lado, as culturas permanentes, como a do café, foram substituídas pelas temporárias, como a do milho e da soja, que não eram ainda nenhuma expressão no estado. Então, começou expressivamente a haver um grande fluxo emigratório dos campos para as cidades, tanto do próprio estado quanto para outros.

 

Fotos da época da cafeeicultura no Paraná:

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Trabalhadores na região de Rolândia PR sem data.

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Café na região de Apucarana PR.

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O trem cortando os cafezais do Norte do Paraná nos anos 1950.

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Norte do Paraná

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Paisagem típica dos “carreadores” em meio ao café na região de Londrina.

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Norte do Paraná.

 

 

 

 

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Clique aqui para ver os destaques de hoje neste portal

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Memórias de um garoto com calças curtas

 

O livro “Memórias de um garoto com calças curtas”  é uma extensa e cuidadosa crônica memorialista, escrita pelo administrador de empresas, Oswaldir Ehlke Scholz, durante a pandemia da COVID-19. Ele mistura a genealogia detalhada de sua família, a história pessoal e relatos de infância e juventude, traçando um panorama afetivo e histórico da família Scholz e suas raízes no Sul do Brasil, especialmente no Paraná* e Santa Catarina.

Dividido em seis partes e com 83 capítulos, o livro cobre desde a chegada dos antepassados alemães ao Brasil no século XIX, passando pelo cotidiano da infância de Oswaldir na cidade da Lapa-PR, depois em Loanda, Matinhos e Joinville, até os preparativos para sua ida ao Rio de Janeiro  para estudar na ETIQT, Escola Técnica da Indústria Química e Têxtil.

 

Oswaldir Ehlke Scholz apresentando o seu livro no Instituto Histórico do Paraná

 

Oswaldir Ehlke Scholz cita os temas do livro:

* Genealogia detalhada* de avós, bisavós e trisavós com foco nas origens alemãs e na trajetória de imigração.
* Histórias familiares com riqueza de detalhes*, como o envolvimento dos antepassados no Cerco da Lapa (1894).
* Memórias afetivas da infância*, com episódios de escola, brincadeiras, aprendizados, castigos e pequenas travessuras típicas de menino.
* A vida escolar e os primeiros desafios da juventude.
* As mudanças de cidade por conta da carreira do pai.
* Uma série de *crônicas pessoais* publicadas no Facebook entre 2021 e 2023, que foram incorporadas ao livro como registros contemporâneos de memória.

O livro é escrito com linguagem clara, tom nostálgico e um forte compromisso com a preservação da história familiar. Serve tanto como documento histórico quanto como uma homenagem pessoal à própria trajetória de vida e aos ancestrais.

 

Descrição do livro:

Com 420 páginas, o livro contém 83 crônicas e foi lançado na Lapa-PR, minha terra natal, em 26 de julho. Como o título sugere, a obra é um resgate de fatos e vivências marcantes de minha vida, desde o nascimento até o momento em que terminei o curso ginasial, com 16 anos.

O livro contempla, inicialmente, em cinco capítulos, a história da imigração dos quatro troncos que deram origem à minha existência: Wille e Scholz, por parte de pai; Wendt e Ehlke, pelo lado da mãe. Nessa parte, faço uma justa e necessária homenagem a meus pais e, também, a meus irmãos.

A segunda parte do livro contém trinta capítulos, reservados aos primeiros anos de vida. Escrevo sobre o meu nascimento e o primeiro aniversário. Destaco o ‘bar, restaurante e pensão do Oswaldo’ – um dos temas recorrentes dessa parte -, onde levei um ‘tapa na cara’, ‘roubei um charuto’ e ‘vi uma vaca querendo jogar sinuca’! Claro que também conto sobre uma ‘briga de rua’, ‘eu, sacristão’ e, naturalmente, o dia em que comecei meus estudos no primário do colégio de freiras.

Outras crônicas dessa época memorável, surpreendentes e até divertidas, compõem esta divisão do livro.
Os doze capítulos seguintes focalizam a vida de família na cidade de Loanda, noroeste do Estado, onde meu pai foi trabalhar como chefe local da empresa concessionária de energia elétrica. Da Lapa, cidade com história, de repente bato de frente com uma cidadezinha pequena, fundada há poucos anos, população diminuta, infraestrutura precária. Energia elétrica à disposição em certos horários do dia, mas sem água encanada. O banho era com ‘chuveiro de campanha’; necessidades fisiológicas eram feitas numa ‘casinha’ de madeira montada sobre uma fossa aberta no fundo do quintal.

Na quarta parte, em sete capítulos, relato os episódios relacionados à transferência de meu pai, de Loanda para o balneário de Matinhos. Muita coisa interessante e engraçada é contada na passagem por Wenceslau Braz e Ponta Grossa, em viagens de trem e de ônibus. Fizemos uma pequena parada na Lapa antes de por os pés nas águas do Atlântico. Onze capítulos têm como cenário as praias de Matinhos, onde conto passagens e casos curiosos. Essa quinta parte do livro focaliza, principalmente, o verão de 1960.

De 1961 a 1962, morei em Joinville-SC, na casa da avó Olívia e dos tios Marina e Jony. Não existia ginásio no balneário e, assim, desgarrei-me da presença de pais e irmãos para viver uma nova ambiência. Muitas histórias – nada mais do que dezoito capítulos – relatam esse período de crescimento e aprendizagem.
Assim é, grosso modo, o meu livro, que procura seus leitores.

 

                                                   Contato para interessados na aquisição do livro (whatsup 41 991090309).

 

 

 

 

Jânio Quadros visitou Fidel Castro em 1960, antes de ser eleito

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O então candidato à presidência e deputado federal Jânio Quadros foi à Cuba com uma comitiva de 43 pessoas para um encontro com o ditador Fidel Castro, em 1960.

Mas depois de vencer a eleição, o governo de Jânio foi curto. Nove meses pós assumir o cargo, ele renunciou, alegando que forças ocultas o impediam de governar.

Veja nesta página a reportagem produzida para os cinemas da época.

 

 

 

 

 

 

 

As telenovelas no tempo dos dramalhões

“Antonio Maria”, de 1968 na TV Tupi, foi uma das últimas novelas no estilo antigo. No mesmo ano a emissora lançou a novela “Beto Rockfeller”, com linguagem moderna, temas contemporâneos e imagens externas, novidades para a época.

Veja abaixo um capítulo de “Antonio Maria”, o motorista português de uma família milionária em São Paulo, que na verdade era um milionário honesto, mas fugido de Portugal. O modelo básico da época era o drama, que se complicava e se arrastava para ter um final feliz só no último capítulo.C. E

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Último Capítulo.

 

Depoimentos dos artistas.

 

Trilha sonora da novela.

 

E ouça também um exemplo de radionovela na série Quo Vadis, adaptada de uma história que virou filme de sucesso nos anos 1960.

Era sobre a luta dos cristãos na Roma antiga contra a perseguição dos imperadores.

 

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Veja abaixo alguns anúncios de telenovelas dos anos 1960..

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A primeira telenonela do Brasil nos anos 1950.

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A revolta dos posseiros paranaenses em 1957 foi tema de livro

Nesta entrevista, gravada em maio de 1998, o escritor Roberto Gomes falava sobre a revolta dos posseiros do Sudoeste do Paraná em 1957.

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Roberto Gomes publicou romances, contos, crônicas e literatura infantil, além de traduções. Sua primeira obra, “Crítica da Razão Tupiniquim” (1977), questionou a filosofia no Brasil. Em 1979, obteve o Prêmio José Geraldo Vieira, com o romance “Alegres Memórias de um Cadáver”. Escreveu outros romances, como “Antes que o Teto Desabe” (1981), “Terceiro Tempo de Jogo” (1985) e “Os Dias do Demônio”. Recebeu também o Prêmio Jabuti em 1982, por “O Menino que Descobriu o Sol”. Seu conto “Sabrina de Trotoar e de Tacape” foi adaptado para o cinema, no longa-metragem “Flor do Desejo”, dirigido por Guilherme de Almeida Prado em 1983. Foi professor da Universidade Federal do Paraná, onde também dirigiu a Editora da UFPR..

José Wille – O seu livro, “Os Dias do Demônio”, relata em ficção aquilo que aconteceu realmente no grande conflito do Sudoeste do Paraná. Como escolheu esse tema para trabalhar e como desenvolveu a pesquisa?

Roberto Gomes – Esse romance é uma coisa com que, imagino, comecei a me preocupar quando tinha 13 anos, ou seja, em 1957, quando aconteceram os fatos aqui no Paraná ­ a revolta dos posseiros etc. Eu morava em Blumenau, onde nasci e onde vivia, naquele ambiente urbano, e uma das coisas que eu fazia aos 13 anos o início do meu interesse pela leitura, pela literatura era ler a revista “O Cruzeiro”, que, embora hoje seja muito difícil as pessoas acreditarem nisto, foi uma excepcional revista, uma revista excelente, como também a revista “Manchete” foi uma revista sensacional em um determinado momento. Na revista “O Cruzeiro”, eles faziam reportagens naquele momento sobre o problema da terra no Paraná, os conflitos da terra. Eu, ainda uma criança, um pré-adolescente, 13 anos, lia aquilo tudo e ficava muito intrigado, porque não entendia direito. Falavam de posseiro, e eu não sabia o que era isso. Para mim, posseiro era de poço. Tinha o jagunço, que eu imaginava que era uma espécie de bandido de faroeste americano, mas também não era, era diferente. Lembro que isso ficou na minha memória. Quando vim para o Paraná e conheci a minha esposa, a Iria, que veio do Sudoeste, ela começou a me contar aquelas histórias. “Eu li isso… quando era menino” e tal e coisa. Quando se fez uma comemoração dessa data de 1957, a Iria estava preparando a dissertação de mestrado e resolveu abordar o movimento de 1957. E eu, ao mesmo tempo, resolvi escrever um romance sobre esse assunto, sobre o qual eu já vinha lendo alguma coisa junto com ela. Fizemos toda a pesquisa, entrevistamos uma série de pessoas, fomos para a região. Ela, pensando na dissertação de mestrado, e eu, pensando no romance.

José Wille – Para começar, o trabalho então foi uma grande reportagem?

Roberto Gomes – Isso! De início, juntamos um material enorme, pastas e mais pastas com jornais da época, entrevistas, fotos etc. Fizemos tudo isso de duas óticas diferentes, mas o material era o mesmo. Publiquei, na época, numa revista chamada “Panorama”, uma ou duas reportagens a respeito de 1957, comemorando os vinte anos isso foi em 1977, se não me engano. Comecei a juntar esse material todo e, a partir de 1986, mais ou menos, decidi escrever esse romance. Quando comecei a escrever, levei um susto, porque eu dispunha de todo o material, de todos os dados, de jornais e fotos, entrevistas, depoimentos, mas eu ia escrever e não funcionava. Não dava certo! Se fosse para escrever uma reportagem, eu escrevia, mas fazer ficção daquilo não dava. Então, comecei a sentir esse processo de transformar aquilo em ficção e foi um processo muito lento, por vários motivos. Primeiro, eu não vivi na região, e esse é um motivo sério. Precisei fazer toda uma reciclagem da minha cabeça para poder entender o que era aquela região. Em segundo lugar, por uma característica da literatura paranaense. Quando, por exemplo, um escritor do Rio Grande do Sul escreve, ele conta com todo um passado literário, desde a literatura regionalista, desde Érico Veríssimo e José Guimarães, na qual ele se apoia para produzir, como, por exemplo, faz Luiz Antônio Assis Brasil, ao produzir essa obra magnífica que está produzindo.

José Wille – Que é descritiva de costumes e falas.

Roberto Gomes – Que fala da história dos costumes, de toda essa formação do Rio Grande do Sul e de todos esses personagens que estão em volta disso. Aqui no Paraná, então, notei o seguinte: eu não tinha nenhum apoio para isso, eu não tinha como fazer esse tipo de abordagem, porque ninguém havia feito antes. Havia até um romance, que acho interessante, do José Angeli, “A Cidade de Alfredo Souza”, mas é a única coisa que eu conhecia. Em suma, eu não sabia como falava o personagem da região, eu não sabia que roupa usava, como se divertia… Então, isso tudo precisou ser recriado. Como se tratava de um romance, a preocupação foi fazer a recriação desse episódio histórico.

José Wille – Para entender a história: qual era o grande conflito, a questão fundamental que provocou toda essa mobilização, principalmente em 1957?

Roberto Gomes – Vou fazer uma síntese, porque não sou historiador e não manejo muito bem esses dados históricos e essas informações mais precisas, mas eu diria o seguinte: até um certo momento desse século, aquela região foi praticamente uma região abandonada, uma região largada a si mesma, onde era costume, por exemplo, os argentinos entrarem, paraguaio pegar erva-mate… Ali, foragidos da polícia, vindos do Rio Grande do Sul, escondiam-se eram conhecidos como farrapos. Aquilo era uma região meio abandonada. A partir de um certo momento, constituiu-se em um problema, pois havia necessidade de ocupar aquela região. Então, o governo brasileiro fez um projeto para a região, um projeto de colonização. Criou a Colônia Agrícola Nacional General Osório, a CANGO, para então colonizar aquilo. Mas, nesse momento, já havia uma titulação de terras sobre aquelas regiões. Ao mesmo tempo, uma estrada de ferro pegou parte daquelas levas. Então, na origem, há uma confusão tremenda de titulações daquela área.

José Wille – Vários donos… E havia ainda o valor daquela madeira, que poderia ser extraída.

Roberto Gomes – Sim. Era uma região riquíssima, principalmente em araucárias e madeira-de-lei da melhor qualidade. E numa quantidade imensa, tanto que as companhias que depois para lá foram, na verdade, não estavam interessadas na terra, elas queriam vender a terra para o colono, que comprava a terra e tirava madeira. O grande objetivo delas era tirar a madeira, extraí-la e vendê-la. Não era propriamente um projeto de colonização, como, por exemplo, aconteceu no Oeste do Paraná. Lá, existiam projetos de colonização, projetos de ocupação. No Sudoeste, a coisa foi muito predatória. E isso gerou, então, essa coisa de terrenos que eram vendidos várias vezes. E era muito comum se brincar com isto na época: um conhecido vendeu para outro o terceiro andar de um terreno. Isso tudo causou esses atritos enormes. E para lá se deslocou uma população muito grande, vinda do Rio Grande do Sul, onde as terras escasseavam e, como as famílias estavam aumentando, os filhos não tinham possibilidade de ficar na terra. Esses gaúchos e parte de catarinenses do Sudoeste e do Oeste de Santa Catarina subiram e foram atraídos por promessas da colonização propostas pelo Getúlio de que receberiam terras, receberiam atendimento médico, dentário, instrumentos e financiamento para se estabelecerem ali. Eles se estabeleceram lá e as companhias de terra começaram, com o tempo, a fazer pressão e a exigir que eles pagassem pela terra que haviam recebido do governo. E isso começou a gerar todo o atrito. O que se pode notar, no primeiro governo do Lupion, é que se acentua e começa todo um processo de pressão sobre os colonos, para que eles reconhecessem os títulos das companhias de terra e pagassem pela terra que já haviam comprado do governo. Essa é a característica do primeiro período do governo do Lupion. Isso chega a um determinado ponto de tensão social, com a presença até mesmo de capangas e de jagunços. Mas, com o governo do Bento Munhoz da Rocha, isso foi relativamente amainado. O Munhoz da Rocha impediu que essa proliferação de títulos e de vendas e negociatas continuassem. Mas, com o segundo governo do Lupion, isso voltou, e voltou com uma velocidade, com uma força muito maior. E foi aí que, realmente, a tensão social naquele local se tornou explosiva. A questão era a população que lá estava estabelecida, que eram esses descendentes de gaúchos e catarinenses, contra os interesses das companhias.

José Wille – Companhias que tinham jagunços.

Roberto Gomes – Sim. E essas companhias, de início, armaram-se, como acontece nesses casos, só de advogados. Como não era possível impor isso à população, elas começaram a se armar propriamente com jagunços, com verdadeiros exércitos de jagunços. Elas conseguiam, por exemplo, em São Paulo, na Bahia, aqui mesmo, libertar pessoas que estavam em presídios, grupos de sujeitos, assassinos e tal, e levavam para lá. Criaram esse exército de jagunços, que cometiam barbaridades terríveis, crueldades monstruosas, espancando gente, matando gente etc. Eles eram a tropa de pressão, mas é claro que essas companhias contavam com o apoio de políticos e, às vezes, de juízes, de delegados, que estavam comprometidos com essas companhias.

 

José Wille – E como começou a revolta?

Roberto Gomes – Uma das dificuldades de se escrever sobre história recente é que os personagens estão, na sua maior parte, vivos. Não quero que ninguém morra, mas é que isso constitui um problema, porque, estando vivos, todos eles, cada um deles tem a sua versão. Então, aquele que era o líder de uma determinada cidade, prefeito da cidade, ou era vereador aqui ou comerciante lá, ou era médico não sei onde, proprietário de terra todos eles têm a sua versão. O que eu notei é que essas versões não são propriamente falsas, mas elas também não são verdadeiras. Elas são parcialmente falsas e parcialmente verdadeiras. Então, o meu romance não tem um personagem principal, ele tem uma quantidade muito grande de personagens, para justamente tentar fazer a história de uma região. Uma região de pessoas muito diferentes e colocadas em diferentes níveis sociais, com atuações de natureza diferente. Então, você vê que tem importância, às vezes, uma figura notável, como, por exemplo, Pedrinho Barbeiro, que é um caboclo, um vereador, cujo projeto era fazer um grande abaixo-assinado na região e levar esse projeto pessoalmente ao Juscelino Kubitschek, pois achava que o Juscelino ia pôr ordem naquela situação…

José Wille –  …que era o presidente da época…

Roberto Gomes – …Presidente da época. Ele ia viajar ao Rio de Janeiro, levando esse abaixo-assinado. Outros se organizaram de outra forma. Havia lideranças, como Walter Pécoits, que era um médico; o Giacomo Trento, que era um comerciante; e outros que atuaram e foram importantes ali. Procuro contar o conjunto dessa história, em que há muitas verdades e elas se complementam. A violência social cresceu de tal forma que chegou num ponto explosivo. Esse ponto explosivo tem três momentos, imagino eu, que aparecem no romance. Primeiro, é o assassinato do Pedrinho Barbeiro. É um fato chocante, e eu começo o livro com ele. Pedrinho Barbeiro foi assassinado brutalmente, quando estava consertando o rancho, a casa onde ele vivia com os seus filhos e a mulher. Isso ocasionou um impacto muito grande. Depois, também, o fato de que um cidadão, num determinado momento, queria fazer um protesto na frente das companhias de terra, mas o advertiram “Não vá lá que está cheio de jagunços com metralhadoras. Se você for lá, eles te fuzilam!”. E aquele grupo, vai, não vai, uns ficaram com medo, recuaram, outros disseram que iam, mas não iam. E, de repente, como era setembro, era Semana da Pátria, ele viu a bandeira do Brasil. Resolveu pegar a bandeira e embrulhar-se nela, saindo em direção à companhia de terra onde estavam os jagunços, porque, segundo ele, se estivesse embrulhado na bandeira do Brasil, ninguém teria coragem de atirar nele. E ele foi morto com várias rajadas de metralhadora. Isso foi também uma coisa de muito impacto. E, finalmente, duas crianças que foram espancadas pelos jagunços. Então, temos uma região inteira que foi atingida e o movimento de 1957 não começa em nenhum lugar do Sudoeste; ele começa em todos os lugares. Quer dizer, a morte do Pedrinho Barbeiro se dá no Verê, em um lugar; esse cidadão que se embrulhou na bandeira, num outro lugar; as crianças, num outro lugar. Aí, a explosão da revolta se dá também em vários lugares ao mesmo tempo no Sudoeste. E o interessante é que o movimento é social. Às vezes, os líderes, os supostos líderes, os políticos, acham que eles conduzem a história, eles fazem história. Mas o Sudoeste é um exemplo de que ninguém faz a história. Todos eles participaram, todos eles tiveram papel importante naquela história. Mas nenhum deles é dono da história, nem da verdade histórica eles foram parte daquela história, que é muito maior do que eles. É um exemplo muito interessante disso..

José Wille – É um dos poucos casos em que um movimento como esse acaba tendo resultado no final?

Roberto Gomes – Acho que eles se uniram porque a grande preocupação, a grande exigência do movimento é que eles queriam, naturalmente, obter uma titulação correta das terras, ter uma titulação definitiva. Mas também queriam se livrar das companhias e queriam se livrar do exército de jagunços. Essa era a meta deles. E, para isso, eles acabaram sendo conduzidos por toda essa dinâmica da revolta, acabaram sendo conduzidos a uma revolta armada. E o interessante é isso que você lembrou: não conheço outro caso na história do Brasil em que tenha acontecido isso, que uma revolta armada de colonos tenha tido êxito. Então, todas as revoltas que conhecemos, em primeiro lugar, tiveram uma mistura maior ou menor de messianismo: Canudos, Contestado, os Muckers do Rio Grande do Sul, uma mistura com religiosidade… Ou, então, uma mistura com partidarismo, partidos… Isso não aconteceu no Sudoeste. O problema no Sudoeste era social e não havia nenhuma preocupação messiânica, religiosa, e eu diria que nem mesmo ideológica. Eles queriam uma coisa muito simples, queriam a terra, que era deles, o título da terra. E queriam que as companhias e os jagunços caíssem fora.

José Wille – E como eles conseguiram se articular e acabaram dominando a região, tendo o reconhecimento do governo?

Roberto Gomes – Eles tomaram a região de uma forma caótica, eu diria, mas que, justamente por isso, acabou sendo eficiente: em vários lugares, eles tomaram a prefeitura, a casa do juiz, os órgãos públicos. Bloquearam pontes, bloquearam estradas, prenderam alguns jagunços. O Giacomo Trento prendeu o Maringá, por exemplo, que era um jagunço feroz, que matou uma montoeira de gente. Eles fizeram, primeiro, esse movimento. O Walter Pécoits, em Francisco Beltrão, prendeu o delegado, soltou os que estavam presos na cadeia e botou o juiz em casa e o delegado no hospital. Esse era o movimento que aconteceu. E esse movimento todo teve uma repercussão, um impacto nacional muito grande.

José Wille – Eles acabaram, inclusive, destruindo a documentação das colonizadoras, que dizia de quem era a terra. Eles acabaram destruindo as provas de quem tinha propriedade.

Roberto Gomes – Isso quando eles chegaram ao final do movimento. O objetivo deles era esse. Mas, para eles chegarem lá, o movimento teve uma tal repercussão nacional que o Lupion teve que mandar seu chefe de polícia, que tinha resolvido um conflito em Foz do Iguaçu e foi para lá tentar resolver o conflito do Sudoeste. E ele chegou com um propósito mais ou menos assim “Eu vou lá resolver essa majorca” – chamava de majorca. Essa era a pretensão dele. Ele chegou de avião em Francisco Beltrão e os colonos que haviam tomado posse da cidade limparam o aeroporto e deixaram-no descer. Quando ele desceu, mandaram o avião voltar e prenderam o chefe de polícia do Lupion. Disseram-lhe que ele estava preso e que eles só iam soltá-lo na hora em que as companhias fossem mandadas embora, junto com seus jagunços. E que não tinha conversa. O Lupion insistiu, mandou telegrama e tal, mas eles disseram “Não tem conversa, ele está preso e acabou-se!”. E isso forçou a que eles tivessem que atender a várias reivindicações em vários lugares no Sudoeste. Uma delas foi a designação do Walter Pécoits como delegado da cidade, o responsável pela cidade. Até que, finalmente, o governo do estado, pressionado, teve que ordenar a saída das companhias. E elas saíram. Todas as companhias, os diretores das companhias e todos os jagunços saíram do Sudoeste numa caravana de jipes e caminhõezinhos. Foi aí a vitória. Nesse momento da vitória, a grande festa do dia 10 de outubro de 1957, foi quando eles entraram em todos os escritórios das companhias. Como o homem do interior é muito objetivo, para ele, o que o escravizava era a promissória que ele tinha sido obrigado a assinar, às vezes sob ameaça de espancamento, aqueles contratos absurdos. Eles queriam encontrar esses contratos e rasgá-los. Entraram nas companhias, tiraram tudo que tinha lá dentro, rasgaram os papéis e os jogaram na rua. Nesse dia, choveu muito, então virou uma lama de papel e barro. E eles, dessa forma, comemoraram a derrubada das companhias.

José Wille – Mas foi o encaminhamento para a solução, pois foi só no governo João Goulart, anos depois, que terminou essa questão.

Roberto Gomes – Em 1962 é que realmente se vai, de uma forma legal, definitiva, dar uma organização a todas essas reivindicações e resolver a questão da titulação das terras. Entre 1957 e 1962, houve um período de acomodação, mas a vitória foi conquistada realmente em 1957.

José Wille – Um livro de ficção dá liberdade maior para se tratar do assunto. Tem essa complexidade de contar a história, mas que não é fiel ao registro por exemplo, o nome das pessoas e esses detalhes.

Roberto Gomes – O grande atrativo dessa história é que ela é uma história essencialmente épica. Digo que é um épico caboclo. É uma história épica, com personagens extremamente fortes, como, por exemplo, os jagunços, personagens que sempre causam um impacto muito grande. A mim, causava uma atração grande entender como era esse homem contratado para matar, matar friamente, mas também como era o pioneiro, a pessoa que sai do Rio Grande do Sul, andando em carroças desconfortáveis, às vezes puxadas por boi, que vinha com crianças e velhos para se estabelecer aqui. Quer dizer, vinham em busca de um sonho. Tanto que a primeira parte do livro é “o paraíso”, a busca pelo paraíso. Esse aspecto épico da história, que é o grande atrativo, foi o que me atraiu muito. Acho que esse é um momento grandioso. E que, na nossa história, nós nem sempre valorizamos suficientemente esse lado heroico, esse lado épico dos acontecimentos.

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